sábado, 30 de julho de 2011

Katyn

Katyn
2007
Andrzej Wajda

Excelente filme sobre o massacre de oficiais poloneses, cometido no início da Segunda Guerra Mundial, pelos soviéticos.
A cena inicial é uma das passagens mais marcantes de todo o filme: uma ponte. Em cada uma das extremidades, famílias inteiras correm com malas, crianças e tudo o que conseguem carregar. Ao se encontrarem no meio da ponte, cada pequena multidão tenta advertir o outro bando: de um lado, fugitivos dos nazistas alemães; do outro, dos comunistas soviéticos. E eis o dilema popular: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
O enredo do filme foca na mentira comunista de tentar divulgar os sumários assassinatos dos oficias poloneses como sendo uma obra dos nazistas, que por sua vez, culpam os soviéticos. Nesse jogo de empurra, sobra apenas a multidão de corpos nas valas comuns da floresta de Katyn.
Mais verdadeiro do que este, apenas o documentário "A História Soviética", que mostra fotos e cenas reais do massacre dos ucranianos por Stálin.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Entrevista

 Entrevista divertidíssima com Pondé.
Dá-lhe humor negro!


O filósofo e ensaísta pernambucano Luiz Felipe Pondé mostra, em uma bem humorada entrevista para a nossa blogueira Tati Bernardi, porque é considerado um dos mais polêmicos colunistas brasileiros da atualidade. Pondé escreve semanalmente para a Folha de S. Paulo.

O QUE VOCÊ DIRIA PRA QUEM TE ACHA PRECONCEITUOSO E ELITISTA?
Eu diria que não tô nem aí pra quem acha isso. O debate intelectual deveria ser elevado, para muito além do “não pode ter preconceito, é feio”. Todo mundo tem e não discutir isso é muito limitador e estúpido. Ninguém debate de fato as angústias e as questões com medo de não ser bonzinho. O mundo virou uma grande empresa com a equipe de recursos humanos trabalhando o tempo todo para nos motivar e melhorar. Isso até se entende dentro de uma empresa, mas na vida é ridículo. Eu sou preconceituoso e você também é, está no nosso DNA.
COMO É O AEROPORTO DOS SONHOS PRA VOCÊ?
Mais vazio, sem aquele “frisson” das pessoas querendo mostrar que são felizes, sem aquele povo brega batendo foto dentro do avião, fazendo pose com aquela comida horrorosa. Muita gente tem medo de voar e essa tensão somada a uma atmosfera de atrasos e lotações, é um horror.
Sou a favor de ter todo tipo de gente dentro do aeroporto. O capitalismo tem mesmo que crescer e dar direito igual a todos que batalharam por um lugar ao sol. Mas me dou ao direito, como ser pensante, intelectual e jornalista, de achar que o aeroporto virou um horror. Me dou ao direito de não querer fazer parte disso, estar junto dessas pessoas.
Essa opinião me fez receber vários e-mails de gente que me detesta. Uma coluna de domingo da ombudsman da Folha, cujo tema foram os colunista, era sobre meu bode de aeroportos. Mas o secretário de redação respondeu encerrando o assunto: quem gosta de zona de conforto não lê o Pondé.
Não sou contra o cara brega, barulhento e mal educado estar no avião, eu só sou a favor do meu direito de não estar lá aturando isso. Simples assim. E te garanto que muitos intelectuais defensores do povo, bonzinhos, pensam como eu mas não pega bem falar.
Você lembra da pizzaria Grupo Sérgio? É o tipo de lugar que não me incomoda que exista, mas eu jamais iria lá. Ou pior ainda: eu jamais iria pra dizer que é legal, que é bonito, conviver com todo mundo. Existe confronto entre classes sim. Isso é óbvio!
VOCÊ NÃO GOSTA DE POBRE?
Não é nada disso. Entenda: eu não tenho nada contra ninguém, eu só tenho bode de quem frequenta lugar barulhento e brega pra dizer que é bonzinho e não tem preconceitos. Quem gosta de pobreza é intelectual. Pobre gosta é de deixar de ser pobre! Eu sou menos preconceituoso e escroto do que quem diz que não é. Fingir que não tem preconceito é ser idiota.
Já fui abordado por mais de uma pessoa simples que me disse “te admiro muito, não é porque sou proletário que eu não gosto e não entendo o que você fala”.
O puritanismo cristão e os babacas intelectuais com seus pensamentos corretos, todo mundo tão cheio de boas intenções, o sexo sustentável com seus preservativos biodegradáveis, a picanha que atrapalha a iluminação do ser na hora de fazer uma aula de yoga, isso tudo só vai deixando todo mundo mais angustiado e limita o discurso a respeito do ser humano. Quem aguenta tanta bondade?
VOCÊ GOSTA DE APARECER? VOCÊ SE ACHA UMA CELEBRIDADE?
Ser reconhecido na rua, ter foto na mídia…não! Mas ter o meu pensamento reconhecido, sim. Não escrevo para ser polêmico, como muitas pessoas acham. É realmente o que eu penso e sempre sonhei em escrever para um jornal, dizer o que eu penso. Nunca quis ser apenas um intelectual dentro de universidades, sempre quis levar o que penso e estudei para as mídias. Claro que existe vaidade, gosto do reconhecimento, gosto de receber muitos e-mails. Minha mulher e minha filha ficam incomodadas quando mulheres me abordam nas ruas. Por isso não gosto muito da exposição física, prefiro a exposição das ideias. Acho ótimo, por exemplo, a Folha não colocar foto dos colunistas.
VOCÊ ACHA TODO MUNDO IDIOTA? VOCÊ SE ACHA SUPERIOR?
O ser humano é idiota e absolutamente igual. A profissão mais fácil que existe é adivinhar o futuro. Quando estou em alguma conferência, sempre brinco “sinto uma energia nessa sala de alguém com problema de baixa auto-estima”. Todo mundo tem baixa auto-estima. É impossível se amar, somos todos desgraçados. Somos mortais, invejosos, preguiçosos, preconceituosos, medrosos, infelizes, frustrados. Fracassamos, levamos foras, sofremos.
VOCE É DEPRIMIDO? TOMA ALGUM REMÉDIO?
Ninguém procura a infelicidade, mas mesmo assim ela sempre nos encontra. Eu nunca tive depressão e nunca tomei nenhum remédio. Mas não sou contra eles existirem, a vida pode ser tão difícil! Se existe algo que te ajuda a sair da cama, por que não? Eu não preciso disso porque só faço o que estou a fim e não tomaria nenhum remédio pra me ajudar a fazer o que não estou a fim.
COMO ENTRAR NUM AEROPORTO LOTADO, POR EXEMPLO?
Eu tenho a Síndrome do aeroporto. Eu chego lá e fico com tanto bode que eu dou meia volta e volto pra casa. Ligo avisando as pessoas que me esperam “olha, não rolou”. Eu me retiro do lugar antes que eu passe mal de tanta irritação.
QUEM PENSA MUITO FAZ MENOS SEXO? COMO É SUA VIDA SEXUAL?
O ser humano é masoquista ao ponto de sempre achar que o mundo inteiro está trepando e gozando loucamente enquanto ele está trabalhando, solitário e infeliz. Isso é uma fantasia…mas é verdade que antigamente as pessoas transavam mais e melhor. Tinha menos coisa pra fazer e mais tempo livre pra ficar de sacanagem.
Ah, e esse papinho de “liberdade sexual” que chegou com a pílula foi só para a classe média porque os pobres já transavam loucamente desde sempre.
PONDÉ, VOCÊ ESTÁ FILOSOFANDO, MAS NÃO ESTÁ RESPONDENDO…SUA VIDA SEXUAL É OU NÃO…
É o quê? Plena? O que é vida sexual plena? Mais uma invenção chata do homem feliz? Sexo gostoso tem a ver com culpa, proibição, isso dá muito mais prazer que fazer amor num gramado florido. A imagem do cara que transa muito e com todas, vendida como o cara saudável, o macho alpha, é falsa. Transar demais e com muitas mulheres banaliza o momento do gozo. E é mentira que o homem só pense nisso, talvez um garoto de 15 anos, mas um homem tem outras coisas pra fazer.
VOCÊ TEM PRECONCEITO COM HOMENS BEM SUCEDIDOS TAMBÉM?
Muitos deles acham que são “o tal” por causa da grana, do carro, do apartamento, da viagem pra Paris. Mas uma pessoa que você conquista com dinheiro é a pessoa mais barata que existe. O amor é caríssimo, por isso tantas mulheres com sede.
O verdadeiro homem alfa é o que sabe que, para encantar verdadeiramente um mulher que valha a pena, não basta levar pra Paris, é preciso também não ser um idiota com um papo chatérrimo.
Mulher gosta de intelecto, diferente do homem que não se seduz por isso.
VOCÊ ACREDITA EM ALGUMA COISA?
Que não dá pra ser outra pessoa além dessa desgraça que você é. Não se ilumina, não se faz sexo pleno, não se para de sentir inveja, medo e de se odiar. E eu acho elegante acreditar em Deus também, e sempre falo para os meus alunos lerem a Bíblia. Não sou religioso e acho grande parte do discurso religioso uma fuga para não pirarmos ao pensar que estamos aqui sem nenhum sentido, mas ainda acho elegante acreditar em Deus e ler a Bíblia.
VOCÊ É A FAVOR DA FRANÇA PROIBIR O USO DA BURCA. É SÓ PRA SER POLÊMICO OU VOCÊ TEM PRECONCEITO COM MUÇULMANOS?
A burca é uma manifestação do fundamentalismo islâmico e não do islamismo. Não sou contra o véu, aliás acho que as mulheres ficam lindíssimas e super sexy com ele. Sou contra o fundamentalismo. Nenhuma mulher, pode perguntar, que é obrigada a usar a burca gosta de usar a burca. O mundo moderno é um lixo, mas ainda é melhor do que qualquer coisa que passe perto do fundamentalismo. A França veio com esse papo da “lei da visibilidade da pessoa” e isso constitucionalmente é impecável, mas não passa de uma brecha do ponto de vista técnico. Sim, o que eles têm é medo! Mas é do fundamentalismo islâmico e não do islamismo. O francês tem cada vez menos filhos enquanto os muçulmanos estão lá, enchendo a cidade de pessoas com costumes e crenças completamente diferentes das dos franceses. Óbvio que isso dá um pânico. E tem que dar mesmo. Ser a favor da burca é o mesmo que ser a favor das mulheres mutilarem o clitóris, é o mesmo que um país aceitar que suas mulheres mutilem seus clitóris.
O QUE VOCÊ ACHA DO BONO VOX?
Você perguntou anteriormente se eu recebo muitos e-mails de gente me xingando. Eu prefiro do que alguns elogios…uma vez um cara falou que eu era o “Bono Vox da filosofia”. Bono Vox é o cara mais chato e brega que existe. É de um mau caratismo profundo amar todo o mundo. É o mesmo discurso do Obama.
VOCÊ ACHA O OBAMA UM MAU CARÁTER?
Acho ele um cara ingênuo e um mau administrador. Ele quer ser gostado e isso nunca pode ser uma boa coisa.
UMA VEZ LI UMA ENTREVISTA SUA E ME PARECEU QUE VOCÊ DEFENDIA AS GUERRAS.
Não existe ser humano em paz e muito menos um país em paz. A Dinamarca é feliz? Mas vai ver o tamanho dela. Agora querer que a China, que o Brasil, que os EUA, que a Rússia vivam em paz, é estupidez. O ódio, assim como a guerra, não são coisas que eu defendo, apenas sei que eles existem e não os nego. As guerras são necessárias, são humanas e não adianta intelectual vir defender o contrário disso pra ter fãs e ser “do bem”.
RAPIDINHAS MALUCAS PRA QUEM TÁ COM BODE DE TANTA FILOSOFIA:
- o que você jogaria num padre?
Nada de especial, não tenho raivas especiais contra padres, já num vegetariano radical eu jogaria uma picanha mal passada…
- Uma palavra de fé para Bono Vox
Deixe de ser tão politicamente correto que enche o saco depois dos 15 anos de idade…
- Se eu estivesse te entrevistando de burca, você me mandaria ficar pelada?
Com certeza…
- Quem lê “Em Busca do Tempo Perdido” perde um tempo precioso em que poderia estar trepando loucamente?
Não. Às vezes, uma boa leitura pode ser melhor do que uma mulher ou um cara chato e carente que pega no seu pé…
- O único jeito de uma intelectual ter a bunda dura é fazendo agachamento segurando a coleção completa da Barsa?
Não, melhor as obras completas do Freud.
- O homem deu errado. Mas o que uma mulher deve fazer pra dar pra ele mesmo assim?
Ser doce, generosa e não encher o saco dele com demandas infinitas, não ser uma control freak…
- Tô pensando em me matar depois da nossa conversa, você iria ao meu velório? Já te aviso de antemão que só vai ter pobre.
Sem problema com os pobres, pior são os pobres de espírito e os novos ricos… mas não se mate ainda.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Aos 27

Trechos de um texto de Pondé sobre Amy Winehouse:

E Amy não faz ridiculo de boazinha, coisa rara na cultura dominada pela breguice. [...] Haja saco para roqueiros que cantam em nome de um mundo melhor.
A imagem de astros pop morrendo de overdose nos anos 60/70 fazia parte da ética contra o sistema. De lá para cá a caretice de se preocupar com o corpo tomou conta do mundo. E artista bonzinho é artista fraquinho.
Não é que se morrer de overdose voce é talentoso. Pode ser apenas mais um idiota da fila.
A virtude básica da tragédia é a coragem de viver sabendo-se amaldiçoado pela finitude e pela falha trágica, ou seja, a desmedida ( hybris, em grego antigo ). A desmedida é o passo que leva o herói a maldição, o exagero passional, a revolta diante do destino.
Estamos todos condenados a gargalhada da morte. A diferença é quem ri de volta para ela, dançando, ou quem chora de medo.
Por isso Nietzsche dizia que o que move a vida da maioria é o ressentimento diante da gargalhada da morte que nos humilha.
Aristóteles já dizia que o terror trágico (a desmedida, o desespero, a morte) que toma conta dos heróis nas tragédias gregas, nos contamina e nos enlouquece de paixão (pathos) por eles. Mas por que?
SIMPLESMENTE PORQUE ELES NÃO PARECEM TER MEDO COMO NÓS.

 Meu álbum preferido.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Escorpiões da alma

Freud, Além da Alma
John Huston
1962

Freud é um daqueles seres que entortam nosso mundo up side down. Meu conhecimento sobre psicologia ou psicanálise não ultrapassa o ordinário, mas confesso que depois deste filme pensei seriamente em fazer análise.
O filme retrata de uma forma bastante didática como se deu o surgimento de uma das maiores e mais complexas teorias sobre o lado escuro humano: a descoberta do inconsciente, o acesso a ele e, em consequência, a elaboração do Complexo de Édipo.  
Não vou aqui tecer delongas sobre o que sabemos ou não sobre a mente humana , mas uma das cenas mais marcantes do filme é aquela em que o velho professor de Freud, que não dá crédito às pesquisas sobre a histeria que Freud vem desenvolvendo, mostra-lhe uma caixa que guarda entre os livros da biblioteca, repleta de um conteúdo bastante inesperado: escorpiões. Ao abri-la diz algo do tipo: é melhor que os escorpiões permaneçam na escuridão.
Fiquei a imaginar até que ponto é bom, saudável ou necessário revirar nosso incosnciente para sanar traumas escondidos. Não consigo chegar a uma conclusão. Ao mesmo tempo que "a verdade liberta", o conhecimento também traz a desgraça. Quanto mais sabemos, mais de perto vemos o mal.
O filme é excelente, a teoria é assustadora e a escolha fica a critério de cada um.

Eu quero viver no Velho Oeste

True Grit
Bravura Indômita
2010
Joel and Ethan Coen
Eu devo estar no lugar errado, no tempo incerto. Deveria ter nascido no Velho Oeste norte americano, lugar onde os homens têm coragem, a lei funciona na base da honra e as mulheres são uma mistura de animal selvagem e inocência. 
E assim condecoro Bravura Indômita como o último suspiro do bom e velho bang-bang americano. Claro, não poderia ser diferente sendo feito por quem foi ( a não ser fosse de Clint Eastwood. Aí não teria comparação). Mas sou suspeita para falar dos Irmãos Coen. Gosto de praticamente tudo que fizeram. Esse não ficou atrás. Da citação de proverbébios que abre o filme à música final que o encerra, tudo cabe perfeitamente bem nessa história. 
Agora é correr para ver o original antes que as férias acabem.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Good

Um Homem Bom.
Good.
Vicente Amorim
2008

Confesso que demorei tempo demais para assistir a este filme. Não consegui vê-lo no cinema e depois disso, por um motivo ou outro, acabei deixando passar. Mas o texto de Pondé desta semana acabou por me lembrar dele.
Este é um daqueles filmes que revertem a ideia pronta que tem-se sobre algo, neste caso o nazismo. Assim como "O Leitor", o filme humaniza as pessoas que fizeram parte do regime totalitário e mostra como é possível uma pessoa boa fazer parte de algo não tão bom assim. O cotidiano, o frio dia-a-dia caseiro familiar, a vida acadêmica, tudo é colocado como a mola propulsora que impulsiona a vida ordinária a algo maior: o Parido Nacional Socialista.
Por vezes o personagem principal, interpretado por Viggo Mortensen, me pareceu bobo e ingênuo demais para um acadêmico, mas a sua bondade é inquestionável: cuida da casa, cozinha, aguenta uma mulher neurótica, uma mãe doente e dois filhos. Mesmo quando abandona sua mulher por outra mas jovem e bonita (of course) ele não permite que a ex-mulher se retrate: a culpa é toda dele. O bom homem. Good.
E assim, deste tipo - e de outros - o nazismo foi se solidificando e construindo seu império holocáustico.
Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra. 

ps: palmas para o diretor brasileiro Vicente Amorim, que também participou de "Brincando nos Campos do Senhor".

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Cópia Fiel



Copie Conforme
Cópia Fiel
Abbas Kiorastami
2010

Qual o verdadeiro valor da cópia de uma obra arte? Seria o copista, o fraudador, tão genial quanto o autor original?Qual a diferença entre a cópia e o original? E na vida?
Cópia Fiel, do iraniano Kiorastami é uma obra de arte para se apreciar a vida.
As primeiras cenas me fizeram relembrar de "Antes do Pôr-do-Sol", de Linklater, onde a câmera percorre as ruas e os personagens de frente, sempre em movimento, andando e conversando, e agindo e gesticulando e discutindo.
Os personagens: um escritor inglês e uma dona de galeria de arte francesa que vive na Itália. O cenário não poderia ser mais belo: a Toscana.Tudo se passa em uma única tarde de passeio e diálogo entre estes dois personagens, que deixam as ruas vazias da cidade para ir a um lugarejo mágico - Lucignano - habitado por noivos e noivas fazendo juras eternas de amor.  A vida a dois se expõe e salta aos olhos.
E neste momento algo se rompe. Os personagens se confundem, nos confundem, passam a conversar ao mesmo tempo em inglês, frânces e italiano. Já não se sabe mais o que é real e o que é falso. A ficção se funde à realidade e a cópia ao original.
É um filme que merece uma segunda chance aos primeiro olhares.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Inverno da Alma

Inverno da Alma
Winter's Bone
Debra Granik
2010

História mais do que trágica (no senso comum da palavra), embalada por belas e tristes canções countries, Inverno da Alma é um filme noir. Country-noir.
A história se desenrola no interior do Missouri, EUA. A vida é rodeada pela pobreza, escassez e gelo. De gelar os ossos da alma.
Ree, uma adolescente de 17 anos se vê responsável pela criação de dois irmãos mais novos e pelos cuidados com a mãe incapacitada pela dureza da realidade. O pai, um traficante local de speed, sumiu depois de colocar a casa da familia como pagamento de fiança. O trabalho de Ree agora é achar o pai para não perder a única coisa que ainda a mantém presa à realidade familiar.
A trama se desenvolve através de personagens carrancudos e tristes, embrutecidos pelo cotidiano local. Uma das poucas cenas de alento é a de abertura, onde as crianças brincam embaladas por uma voz em off feminina, que canta sem acompanhamento instrumental (de gelar as entranhas) e mais adiante, na metade do filme, quando Ree presencia uma festa onde a mesma voz feminina, agora encarnada numa senhora rechonchuda, canta acompanhada pelos clássicos instrumentos do sul dos EUA, entre eles o banjo.
O final é surpreendente e dramático. Hibernação da alma.

domingo, 3 de julho de 2011

Gainsbourg - Vie héroïque

Tive acesso a este filme em São Paulo há alguns meses e só agora a Bravo! criticou.
Um longa sensacional sobre a vida e obra de Serge Gainsbourg, um dos maiores artistas do século XX.
Destaque para a parte onírica do filme, que conta com dois personagens-bonecos alteregos de Gainsbourg e para os momentos de criação dos clássicos como Je T'aime moi non plus e minha interpretação favorita de La Javanaise.

http://youtu.be/QWlo66nw8Bk

O título original ,Gainsbourg, Vida Heroica, chega aqui com a parca tradação de Gainsbourg - O homem que amava as mulheres.  
Vale pela atuação do protagonista, incorporado por Gainsbourg e , claro, pelas músicas.

domingo, 19 de junho de 2011

Brasil, Brasil...

Mariana Figueiredo Prata Pereira, representante de Teresópolis, venceu o Miss Rio de Janeiro. 
Atenção para profissão e gosto por leitura:

 

Nome: Mariana Figueiredo Prata Pereira
Idade: 24 anos
Profissão: estudante de Letras
Hobby: viajar
Livro: não gosta de ler
Filme: O Dia Depois de Amanhã
Música: Paula Fernandes
Homem bonito: Reynaldo Gianecchini
Mulher bonita: Natália Guimarães
Namorado: não
Sonho: ser Miss Brasil
Na mala da miss não pode faltar: salto alto e maquiagem


É. Nunca achei que fosse dizer isso, mas bom mesmo era o tempo que miss dizia que livro bom era O Pequeno Príncipe e que o sonho era salvar o planeta...

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Ainda sobre "Homens e Deuses"

Coloco aqui, na íntegra, a reportagem de um dos sobreviventes do massacre narrado em " Homens e Deuses". 


Monge sobrevivente do massacre retratado em "Homens e Deuses" fala sobre o filme em entrevista exclusiva


Jean-Pierre Schumacher, um dos monges sobreviventes do massacre de 1996 jamais havia falado depois da morte dos monges de Tibhirine até agora. Aos 88 anos em um mosteiro no Marrocos, aceitou ser entrevistado.
Confira na integra a entrevista de Jean-Marie Guénois, publicada na revista Le Figaro Magazine, em 06/02/2011, sobre sua opinião sobre o filme Homens e Deuses, de Xavier Beauvois traduzida por Moisés Sbardelotto:


O senhor gostou do filme "Homens e deuses"?
Ele me tocou profundamente. Comoveu-me rever as coisas que vivemos juntos. Mas senti principalmente uma espécie de plenitude, nenhuma tristeza. Achei o filme muito bonito, porque a sua mensagem é realmente verdadeira, mesmo que a filmagem nem sempre corresponda exatamente com o que aconteceu. Mas isso não importa. O essencial é a mensagem. E o filme é um ícone. Um ícone diz muito mais do que se vê... É um pouco como o canto gregoriano. Quando é bem composto, o autor coloca nele uma mensagem, e quem o canta encontra nele mais ainda, porque o Espírito trabalha nele. Nesse sentido, o filme é um ícone. É verdadeiramente um êxito, uma obra-prima.
O senhor não tem nenhuma crítica a fazer?
Ouvi algumas críticas ao papel do prior, Christian de Chergé. Alguns o acharam um pouco apagado, mas eu o achei muito bom. Outros o acharam muito austero, porque jamais se vê ele sorrindo. Mas ele tem tudo a ver com o personagem que convém à grave situação que atravessamos. Admira, nesse papel, o seu modo de se pôr à escuta dos freis, particularmente nos momentos difíceis. Ele não quer impôr. Ele está à escuta. Sente-se que ele tem pleno respeito pelos freis. Vê-se o pastor e a sua preocupação de se abrir a Deus, para se deixar trabalhar por Deus e ter a reação certa perante os freis. Em todo o filme, vê-se essa abertura a Deus, ele se interroga, ele se deixa influenciar por ele. Isso é monástico!
Há alguma lacuna com relação à história real?
Não a percebi.
Mas como o senhor, como monge, vive o sucesso do filme?
Estamos contentes e maravilhados de ver um tal sucesso, mas não temos nada a ver! O fato de ser conhecido me perturba um pouco... Um monge é feito para estar escondido.

Por que no início da gravação do filme o senhor era contrário?
Não queríamos aceitar o filme, nem que ele fosse filmado no Marrocos por causa do risco de sermos suspeitos de proselitismo. Naquele momento, alguns não recebiam mais há muito tempo a permissão de estada. Devíamos ser muito prudentes, mas estávamos abandonamos à vontade do Senhor. Por isso, não fomos consultados. A equipe sabia da nossa oposição e conhecia as razões da nossa prudência. Foram muito respeitosos.
Quando o senhor chegou em Tibhirine?
Jamais me esquecerei daquele 19 de setembro de 1964, quando chegamos perto do mosteiro em dois cavalos. Sempre verei aquele menino na garupa de um asno que veio ao nosso encontro para nos acolher. Eu estava muito feliz. Da minha pequena cela, eu via o claustro, o jardim e o vilarejo à distância. Eu então me disse: eis a paisagem que eu verei no final da minha vida. Porque no meu coração era pela vida inteira. Sem retorno. Fiquei 32 anos, de 1964 até o sequestro em 1996.
Como era a vida lá?
Os primeiros tempos foram difíceis. Na comunidade, faltava estabilidade, e foi um período muito duro de se viver. Além disso, a nova Argélia estava se ajeitando. As relações com as pessoas dos arredores não eram fáceis. Havia reflexos da rejeição dos franceses. Percebia-se essa lacuna por ocasião das festas, cristãs ou muçulmanas. Não tinham nada a ver umas com as outras. Lutamos contra isso e procuramos nos tornar mais sociáveis mutualmente. Por isso, o consultório, administrado pelo frei Luc, foi muito importante. Ele acolhia até 80 pessoas por dia! Depois, Christian de Chergé foi eleito prior em 1984. Tínhamos necessidade de alguém como ele que falasse árabe e conhecesse bem a cultura muçulmana. Desde então, tornamo-nos uma verdadeira comunidade, mais estável. Quem se engajava, o fazia a sério. Éramos quase independentes. Isso foi uma vantagem, porque nos permitiu empreender muitas iniciativas nas relações islamo-cristãs.

Que papel teve Christian de Chergé?
Com ele, houve uma evolução para a islamologia. Ele, pessoalmente, estudou muito o Alcorão. De manhã, ele fazia a lectio divina com uma Bíblia em árabe. Às vezes, fazia a meditação com o Alcorão. Ele procurava nos fazer evoluir. Tínhamos relações com o Islã, mas não em nível intelectual. Ele conhecia muito bem o ambiente muçulmano e a espiritualidade sufi. Alguns monges consideravam que a comunidade devia permanecer em equilíbrio e que nem tudo devia ser orientado pelo Islã. Isso causou alguns atritos. As tensões acabaram sendo superadas graças à criação de um grupo de troca e de partilha com muçulmanos sufis, que chamamos de ribat, um termo árabe. Entendemos que a situação sobre os dogmas dividia, já que era impossível. Então, falava-se do caminho para Deus. Rezava-se em silêncio, cada um segundo sua própria oração a Ele. Esses encontros bienais se interromperam em 1993, quando começou a ficar perigoso. Mas o conhecimento mútuo fez de nós verdadeiros irmãos, profundamente.

Em que o padre Christian de Chergé lhe marcou?
O que mais me tocava nele era a sua paixão interior pela descoberta da alma muçulmana e por viver essa comunhão com eles e com Deus, sempre permanecendo um verdadeiro monge e cristão.
A quem o senhor se sentia mais próximo?
Do frei Luc! Éramos muito próximos. Ele não era padre, era frei. Podia-se confiar nele. Era cheio de sabedoria. Em uma pequena comunidade em que não há muitos sacerdotes, não é fácil encontrar um diretor espiritual. Se eu tinha um problema ou uma dificuldade de relação com um coirmão, eu ia logo ao encontro do frei Luc, sabendo bem que haveria uma resposta. Era um modelo... No capítulo, mesmo durante o período de tensão e de medo, ele sempre conseguia arrancar uma risada. Ele era precioso para a vida em comum. Mesmo que, como médico, ele tivesse um regime especial, porque ficava todo o dia no consultório e além disso se ocupava da cozinha! Começava os seus dias à 1h da manhã para estar pronto para as sete horas no consultório. Sofria de asma e não conseguia dormir. Dormia de pé! Era muito próximo também do frei Amédée, o outro que conseguiu escapar, que morreu aqui, em Midelt.
O senhor reza pelos freis desaparecidos?
Busco ter um momento todas as manhãs. Não me esqueci deles. Continuam presentes. Todos. Busco seguir em frente. O filme, desse ponto de vista, nos estimula na nossa vocação.
Os seus coirmãos lhe falam na oração?
Não, ainda não... Tenho a certeza de que estão perto do Senhor. Tive essa certeza desde o início, por causa do seu martírio. Isso dá alegria, não tristeza. É isso que eu sinto olhando o filme: alegria, não nostalgia! (risos). Esperando que o Senhor nos mande outros monges que queiram viver isso.
O senhor nunca sente saudades da vida em Tibhirine?
Um pouco, sim... Vivemos coisas muito bonitas juntos. E depois a vida em comum para representar o Senhor e a sua Igreja. É uma vocação muito bonita. Pode levar longe. Cristo é maior do que a Igreja. Os sufis utilizam uma imagem para falar da nossa relação com os muçulmanos. É uma escada dupla. Os pés apoiam-se na terra, e a parte alta toca o céu. Nós subimos de um lado, eles do outro, segundo o seu método. Quanto mais se está perto de Deus, mais se está perto uns dos outros. E, reciprocamente, quanto mais se está perto uns dos outros, mais se está perto de Deus. Toda a teologia está nisso!
Porém, o encontro era com a morte...
O que vivemos lá, juntos e desde o início, foi uma ação de graças. Preparamo-nos para isso juntos. Por fidelidade à nossa vocação, havíamos decidido ficar, sabendo muito bem o que podia acontecer. O Senhor nos envia. Não renunciamos mesmo que, ao nosso redor, os violentos busquem nos fazer ir embora, e até mesmo as autoridades. Mas temos o nosso Mestre e estávamos comprometidos com Ele. Em segundo lugar, veio a vontade de ser fiéis às pessoas que estavam ao nosso redor e de não abandoná-las. Estavam tão ameaçadas quanto nós. Estavam entre dois fogos, o Exército e os terroristas. A decisão de não nos separarmos foi tomada em 1993. E mesmo que fôssemos dispersados pela força, devíamos nos reencontrar em Fez, no Marrocos, para recomeçar e nos estabelecer em um outro país muçulmano.
Como o senhor vive o que aconteceu: como um fracasso ou como um cumprimento?
Depois do sequestro, eu e o padre Amédée fomos obrigado a ir à Argélia com a polícia. Rezamos pelos nossos coirmãos para que Deus lhes desse a força e a graça de ir até o fim. Esperávamos uma intervenção da França ou uma intervenção eclesiástica que lhes obtivesse a libertação. Ficamos sabendo da sua morte no dia 21 de maio de 1996. Estávamos rezando as Vésperas. De repente, jovem frei chegou na capela e se jogou por terra diante de todos, gritando o seu desespero: "Os freis foram todos mortos!". À noite, enquanto estávamos lado a lado lavando os pratos, eu lhe disse: "É preciso viver isso como algo muito bonito, muito grande. É preciso ser digno. E a missa que celebraremos por eles não será de preto. Será de vermelho". Nós os vimos logo como mártires, com efeito. O martírio era o cumprimento de tudo ao nos que havíamos preparado há muito tempo ao longo da nossa vida. Aqueles anos que havíamos vivido juntos no perigo. Estávamos prontos, todos. Mas isso não excluiu o medo.
Quando começou o medo?
A partir de 1993, depois da visita do GIA [Grupo Islâmico Armado], na noite de Natal. A comunidade, a partir de então, se reforçou muito em união e em profundidade. O perigo já estava em todos os lugares, em todos os instantes, noite e dia. Isso nos abalou muito. Havíamos visto verdadeiramente o abismo naquele momento.
O que aconteceu exatamente?
Na noite de Natal de 1993, eles escalaram o muro. Estávamos na sacristia com Célestin, que preparava os folhetos dos cantos para a missa de Natal. Homens armados até os dentes nos circundaram. Os croatas haviam recém sido mortos, pensamos que era a nossa vez. Eles nos tranquilizaram. Como éramos religiosos, não nos fariam nada. Mas começaram então a falar mal do governo. Depois, o chefe disse: "Quero falar com o papa daqui". Fomos procurar Christian, que logo disse: "Não, aqui não se com armas. Se querem entrar, deixem as suas armas do lado de fora. Ninguém jamais entrou aqui armado. Esta é uma casa de paz!". No fim, discutiram e exigiram três coisas: que o doutor fosse cuidar dos feridos na montanha, medicamentos, dinheiro. Com tato, Christian respondeu não a todas as demandas. Exceto pelos feridos, que podiam vir, como todos, ao consultório. Depois, disse em árabe que estávamos preparando "a festa do nascimento do príncipe da paz". Eles não sabiam disso e se desculparam, mas disseram: "Voltaremos". Dando uma palavra de ordem: eles perguntariam pelo "senhor Christian". Naquela noite, a missa da meia-noite tinha um sabor particular. No dia seguinte, no capítulo, começamos a discutir o futuro.
O que decidiram?
Que, se pedissem dinheiro, lhes daríamos um pouco para evitar a violência, mas pensávamos também em ir embora, porque não queríamos colaborar com eles. Depois o bispo de Argel veio nos dizer que, se decidíamos partir, não devíamos ir todos juntos, para não assustar a Igreja da Argélia. Decidimos que dois dentre nós partiriam. Célestin, que havia ficado traumatizado desde aquele Natal e que devia passar por uma cirurgia de seis pontes de safena no coração, e o frei Paul, que precisava de repouso.
Havia unanimidade entre vocês?
Depois daquele Natal, houve um outro capítulo. Alguns pensavam que devíamos ficar, outros que era melhor partir. Ainda mais que, naquele momento, por segurança, éramos obrigados a fechar o mosteiro desde o fim da tarde até a manhã. Também dissemos a quem fazia retiros espirituais entre nós que não viessem mais. Estávamos isolados. Isso mudou a economia do mosteiro. Era preciso encontrar outras formas para viver.
Houve divergências?
As coisas evoluíram. O padre Armand Veilleux, que veio pregar um dos últimos retiros, nos havia dito que havíamos chegado "ao cume" da nossa vida em comum. De fato, havíamos chegado unanimemente à decisão de ficar. As relações fraternas haviam se fortalecido ainda mais. No capítulo, não se podia tomar rapidamente decisões tão graves, com relação ao GIA, a uma eventual partida, à nossa conduta caso fôssemos sequestrados ou dispersados... Estávamos todos decididos a ficar, mas o medo daquilo que aconteceria estava presente, mais ou menos, entre todos. Mas era preciso continuar vivendo. Havia atentados à direita e à esquerda. Pessoas próximas do mosteiro haviam sido presas ou ameaçadas. Eis o clima em que vivíamos.
Não havia serenidade, nem depois de terem feito a decisão de ficar?
Não, jamais. À noite, quando cantávamos as Completas, havia como que uma capa de perigo, de chumbo, que descia sobre o mosteiro. De noite, podia acontecer alguma coisa. Dizíamos: o que vai nos acontecer nesta noite? Não esperávamos ser mortos, mas sabíamos que isso podia acontecer a qualquer momento. Tínhamos a sorte de ser uma comunidade. E a vida continuava: um era cozinheiro, outro jardineiro, outro se ocupava da administração. Isso permitia esquecer, mas de tarde, à noite, perguntávamo-nos o que poderia acontecer. Não o dizíamos, mas cada um pensava nisso.
E o que aconteceu na noite do sequestro?
Na noite do sequestro, eu estava no quarto do porteiro. Despertei-me em torno da 1h, com o barulho de vozes diante do portão. Já estavam dentro, no jardim. Seguramente, queriam ver o doutor. Eu estava esperando que batessem na porta antes de me manifestar. Fui olhar pela janela. Vi um deles indo diretamente para o quarto do frei Luc. Não era normal, porque, quando se quer ver o doutor, bate-se no portão, e o porteiro se apresenta. E ouvi uma voz que dizia: "Quem é o chefe?". E reconheci Christian. Eu pensei: "Eles os ouviu antes que eu, abriu a porta e lhes dará o que querem". Em 15 minutos, ouvi que a porta que dava para a rua se fechava e pensei que tivessem ido embora. Um pouco mais tarde, o padre Amédée bateu na porta e me disse: "Os freis foram raptados!". Eles deviam ter saído pelos fundos, senão eu os teria ouvido.
O que o senhor sentiu naquele momento?
A pergunta que me fiz imediatamente era saber o que eu teria feito se os tivesse ouvido e visto sair. Ficaria ou correria atrás deles para ir com eles?
E a sua resposta?
Ainda não respondi. Se isso tivesse acontecido, não seria fácil, mas tenho a sensação de que teria corrido atrás deles. Amédée logo me disse: "Não vão lhes matar, porque se o quisessem já o teriam feito logo". Era muito difícil circular de noite na montanha, porque havia um posto militar não muito longe, na colina. Além disso, o frei Luc tinha 82 anos, e um outro recém havia saído do hospital, com seis pontes de safena. Caminhar com pessoas assim não era fácil. Pensávamos que se serviriam deles para alguma coisa. Na expectativa, nos sentíamos completamente sozinhos, sem os nossos coirmãos. A comunidade estava destruída. Esperávamos, acima de qualquer coisa, que lhes libertariam logo, porque, se não voltassem, a vida no mosteiro estava acabada.
Por que os sequestradores não entraram como das outras vezes?
Quando eles vieram, escalaram o muro. Depois, do lado de dentro, abriram a porta que dava para a rua. Ela tinha apenas uma simples tranca. Aquela porta nunca era fechada a chave. Queríamos que as nossas relações fossem fundadas na confiança mútua.
Os sequestradores eram do GIA ou não?
O guardião do mosteiro me disse que haviam ido ao seu encontro antes, dizendo que queriam ver o doutor, com a desculpa de que tinham dois feridos graves. Ele lhes havia respondido que os padres lhes havia proibido de continuar seu serviço de guarda durante a noite no mosteiro. Era verdade. Haviam-lhe proibido para que não houvesse problemas para a sua família e para ele, no caso de uma desgraça, se houvesse uma agressão... Insistiram. Então, o guardião saiu de casa pelo pátio interior para se dirigir ao mosteiro. Lá, se deparou com um grupo que já estava no pátio. Conduzido para a frente do portão que dava para o quarto do porteiro, ele se encontro no meio de um outro grupo que já havia detido o padre Christian. Estes, então, lhe perguntaram: "Quem é o chefe?". Um dos sequestradores respondeu indicando o líder: "Ele é o chefe, eles devem lhe obedecer". Depois, um deles, dirigindo-se ao guardião, perguntou: "São sete, não é verdade?". O guardião respondeu: "É o que você disse". Mas éramos nove... Provavelmente é por isso que eu e o padre Amédée não fomos levados. Porque, quando eles prenderam sete monges, foram embora sem revistar toda a casa.
Mas o que o senhor acha: quem lhes raptou? O GIA ou o Exército?
Só sabemos aquilo que aconteceu no mosteiro. Sobre o resto, nos interrogamos como todos. A investigação continua. Quanto ao GIA, o guardião me contou que, enquanto desciam, um dos que o acompanhavam disse a um de seus colegas: "Vá buscar uma corda. Ele vai ver quem é o GIA", porque queriam enforcá-lo, mas ele conseguiu se esconder.
Depois de tantos anos, o senhor não consegue ver mais claramente os motivos do sequestro?
Não é possível ver claramente. Em um dos comunicados na rádio Medi 1, o GIA deu uma razão para a sua execução: "As pessoas se convertiam em contato com eles, porque eles tinham relações e saíam do mosteiro, coisa que os monges não deveriam fazer. Eles merecem a morte. Temos o direito de executá-los". Eis, portanto, uma das razões. Ela foi dada pelos próprios extremistas islâmicos. Em seguida, foram dados outros motivos, que são mais hipóteses, esperando o veredito do juiz instrutório que conduz uma investigação sobre as circunstâncias do sequestro e da execução.
Como o senhor vive esse enigma?
Gostaríamos de saber quem os matou e onde os seus corpos estão sepultados. Gostaríamos de saber isso, mas isso é tudo, isso não me inquieta mais. Isso não muda em nada a morte dos freis. Eles estão mortos pelas razões pelas quais haviam escolhido ficar. É por isso que são mártires. Deram a vida. Estavam prontos para dar a vida por isso.
Pode-se esperar o martírio?
Alguns o fizeram, mas esse não era o nosso estado de espírito. Não o desejávamos, não estávamos ali para isso. Mas era preciso estar pronto. Estávamos nas mãos de Deus. E é por isso que, vivendo naquele estado de espírito, os meus irmãos foram mortos. Devo reconhecer e dizer que não ficamos excessivamente chocados. Certamente, isso nos marca, faz sofrer, dá pena... Mas sabíamos o "porquê". Estávamos todos prontos para isso! A vida é só uma passagem, ela termina de um modo ou de outro. Depois voltamos para o Senhor.
O filme de Xavier Beauvois, inspirado no seu sacrifício, pode ser um fermento de reconciliação entre cristãos e muçulmanos?
Certamente! O exemplo dos freis, na sua relação com as pessoas, com os muçulmanos, mostra que podemos nos tornar verdadeiros irmãos, na comunhão, juntos, em profundidade e não só superficialmente. Em profundidade, diante de Deus. Alguns viveram isso. Não é raro. Quando os cristãos veem isso, dão-se conta de que os muçulmanos são pessoas como as outras. Alguns são muito bons: os valores de acolhida, de gentileza, de complacência podem ser vistos. Assim como os valores de união com Deus, de orações cotidianas. Eles têm relações com Deus que são às vezes muito surpreendentes e que são verdadeiros exemplos para nós, cristãos. Um amigo de Christian, que deu a vida por ele, lhe dizia: os cristãos não sabem rezar... São muito caridosos, prestam muitos serviços, mas você nunca os vê rezando! Muitos cristãos poderiam entendê-lo.
O senhor nunca sentiu ódio durante e depois do drama?
É estranho, mas não sinto esse sentimento.
E amargura?
Também não.
Como o senhor interpreta o atual endurecimento de alguns muçulmanos contra os cristãos, do qual os recentes atentados são um sinal?
Isso vem dos extremistas. Os verdadeiros muçulmanos dizem: isso não somos nós. Eles se envergonham do que aconteceu com os freis. Não é a "religião". De outro lado, não nos conhecemos o suficiente. Percebemo-nos por meio dos violentos, e isso cria uma tendência a se reagrupar entre semelhantes e a ter medo dos contatos. A solução é cultivar a amizade, mesmo com o risco de ser enganado.
Ser enganado?
Sim. Há quem fale de reciprocidade. Mas se vê pouco ou nada disso: permitimos que os muçulmanos construam mesquitas entre nós, mas antes que se possa construir igrejas entre eles...
O senhor pensar isso de verdade? Na realidade, os cristãos são frequentemente acusados de ingenuidade com o Islã...
A questão não é essa. Pela fé, nós nos arriscamos! Está escrito no Evangelho: "Amai-vos como eu vos amei". Então, muitas vezes se perde, é preciso saber. Mas às vezes há uma reação. Então, a reciprocidade está lá, e um reconhecimento mútuo pode ir muito longe.
Qual é a sua esperança para 2011?
É preciso esperar que o amor seja sempre o mais forte. Que o amor de Deus terá a última palavra. Fundada em Deus, a esperança deve permanecer. E não somos nós que podemos resolver as coisas. A esperança é invencível, como dizia Christian de Chergé. Ela não deve ser vencida, deve permanecer sempre em aberto, fundada em Deus, na Sua graça. Mesmo quando se morre sob os golpes. Como dizia, a esperança deve permanecer em aberto...