segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A canalhice honesta é uma arte moral acessível somente para almas sinceras - Pondé



Você sabe o que é um canalha honesto? Um canalha honesto é alguém que diz para você que as reuniões na casa dele para discutir filosofia é para pegar mulher. Ou que aprendeu a cozinhar para pegar mulher. Um canalha desonesto é um canalha que diz que de fato a filosofia é importante para ele ou que cozinhar o faz se sentir mais autônomo na vida.

A arte da desonestidade na canalhice pode ir longe ao ponto de você dizer que é de fato feminista, e não que ser feminista num homem pode ajudá-lo a pegar mulher –o que eu, pessoalmente, duvido que tenha sucesso de fato.

O personagem Palhares, do Nelson Rodrigues, era o canalha honesto. Era marxista para pegar mulher, depois se converteu à psicanálise, ao nudismo, à maconha, a Jesus. E Nelson dizia que um dia haveríamos de ter saudade do Palhares. Mais uma vez nosso sábio acertou em sua previsão. Segundo Nelson, nem a canalhice estaria a salvo da má-fé que se instalaria no seio da cultura ocidental.
Pois bem, e aí chegamos a uma conversa que tive há alguns dias sobre essa canalhice desonesta chamada poliamor. O primeiro traço de canalhice desonesta é quando o agente da ação diz que faz X porque ele evoluiu para tal. No caso do poliamor, para uma forma de amor coletivo e sem ciúmes. Toda pessoa que se diz segura é um canalha desonesto. Como se sabe, toda virtude verdadeira é silenciosa.

Em nossa conversa, o poliamor era apresentado como uma condição em que você pode dividir pessoas amorosamente e sexualmente com outras pessoas e tudo bem.

Veja bem: sempre existiu gente que gosta de sacanagem coletiva. Entendo que um canalha honesto tente convencer a namorada ou mulher a aceitar que uma colega da faculdade ou do trabalho venha passar um final de semana em Gonçalves com eles. E, que, em dado momento, tente fazer com que as duas se peguem. Um sonho clássico de consumo de canalhas honestos (ou, simplesmente, de homens honestos) é ver duas minas se pegando.

Entendo também que mulheres honestas fantasiem com dois caras comendo elas ao mesmo tempo. A canalhice honesta é uma arte moral acessível somente para almas sinceras.

Uma comparação comum que se faz com o poliamor é com a prática do harém. Ao ouvir essa comparação outro dia, subiu à minha alma uma grande indignação!

Eu disse de forma veemente: "Pare por aí! Num harém, as mulheres competiam e se matavam. Matavam os filhos homens umas das outras, com medo de que uma delas se tornasse muito poderosa por ter dado um filho varão para o Sultão. Era um inferno de traições". Inclusive se comiam umas as outras por desespero e solidão confessa (coisa hoje que muita gente não ousa confessar que seja o motor de muita mulher comendo umas as outras, em todas as idades).

Tomado por indignação e pela certeza de que, ao compararmos o poliamor com um harém, faltamos com respeito para com todas aquelas mulheres, muitas vezes infelizes (uma das maiores cretinices de nossa época é a falta de respeito para com a infelicidade), continuei de forma apaixonada: "Aquelas mulheres competiam e se matavam, por isso mesmo eram gente séria e digna! Merecem nosso respeito!".

Imagino que muita gente ao me ouvir dizer isso não me entenda plenamente. Como assim, gente que compete e se mata é gente digna e merece nosso respeito?

A vida digna é imersa em sangue, beleza e sofrimento. O maior engano contemporâneo com relação a qualquer forma verdadeira de ética e virtude é algo que os antigos (gente muito mais séria do que nós) sempre souberam, incluindo Aristóteles em sua filosofia das virtudes conhecida como "Ética a Nicômaco": a virtude só nasce num terreno que lhe é hostil. Qualquer outra afirmação sobre virtude é falsa.

A honestidade do canalha Palhares do Nelson nasceu no momento em que ele confessou que agarrou a cunhada mais jovem na saída do banheiro por puro desespero: a beleza dela era maior do que qualquer risco de ser pego no meio do crime.

A desonestidade do poliamor nasce da sua demanda de garantia de não sofrimento. Um harém era um lugar de agonia, e virtudes são filhas da agonia.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Dúvida sobre morrer de culpa ou tristeza divide estética e moral - Pondé


Muita gente pensa que filósofo é "racional". Tem muito filósofo assim mesmo. Que acredita nas ideias. Mas nem sempre é assim. Para mim, as ideias seguem as taras e as emoções, se acomodam a elas, que fazem o que podem para sobreviver num mundo muitas vezes hostil aos sentimentos. Penso, como os românticos, que o centro da vida são os afetos.

Dias atrás, uma amiga me pôs uma questão de ordem moral muito instigante: do que eu preferiria morrer? De tristeza ou de culpa? Proponho a você a mesma indagação. Qual seria, entre as duas, a pior forma de morrer (ou viver)?

Caso fosse dada a você a necessidade imperativa de fazer uma escolha desta ordem, morrer de tristeza ou morrer de culpa, qual você escolheria? Não tenha pressa em responder. Afinal, nas duas alternativas está a palavra "morrer", palavra esta que exige cuidado ao ser manipulada. Nessa questão está pressuposta a escolha entre dois males (como me dizia outra amiga dias atrás).

As duas alternativas transitam pelo que na filosofia chamaríamos de experiência estética e moral. Estética em filosofia não significa a priori algo a ver com a arte, mas com as sensações por conta da palavra grega "aesthesis" ser traduzida por sensações ("anestesia" significa perda das sensações não por acaso...). Uma experiência estética toca os afetos, o gosto, as sensações.

Moral, por sua vez, fala do comportamento, da norma, da boa ou da má conduta, do certo ou do errado, enfim, do que é esperado de nós no tocante ao convívio normatizado em sociedade.

É comum imaginar-se que haveria um conflito inevitável entre uma experiência estética e uma experiência moral, já que a segunda pressupõe alguma forma de constrangimento da primeira, a fim de torná-la "civilizada". Autores como os românticos alemães dos séculos 18 e 19 sonhavam com um encontro profundo entre estética e moral, no qual "o que sentimos existiria em harmonia com nossa ação moral".

Utopia? Sim, creio ser uma utopia. Somos demasiadamente contraditórios para termos qualquer forma de harmonia nesse nível. Harmônicos, só os cadáveres ou os mentirosos.

Voltando a nossa questão. O que você escolheria: morrer de tristeza ou de culpa?

Tristeza é um afeto, um sentimento, um estado de alma advindo da perda de algo que nos dá prazer, felicidade, gosto pra viver. Impossível esgotar os sentidos da tristeza. São Tomás de Aquino (século 13) achava a tristeza uma forma de pecado porque o mundo, segundo o Criador, é bom. Você acredita que seja bom mesmo?

Culpa, por sua vez, é um afeto essencialmente decorrente da vida moral. Muita gente acredita, como os filósofos ingleses dos séculos 18 e 19, que a base da vida moral seja o afeto, portanto, haveria uma relação profunda entre a moral e a estética. No caso, a culpa seria um afeto moral decorrente da consciência de que fizemos sofrer alguém que não merecia sofrer.

Mas na questão em si está o fato de você poder morrer de uma das duas, tristeza ou culpa. Vejamos um pouco de contexto hipotético para ajudar em sua decisão.

Imagine que essa tristeza fosse causada pela certeza de que você deve abrir mão de algo que você ama muito ou deseja profundamente. Algo ou alguém que você sinta ter buscado a vida inteira, mas que não pode ou não deve ter com você, a não ser que seja às custas de muito sofrimento para outras pessoas que não merecem tamanho e atroz sofrimento.

Você deveria abrir mão desse seu desejo em favor do que seria o esperado em termos de normas sociais e de cuidado para com os "inocentes". Ao fazê-lo, optaria por ser triste, mas fiel ao que é certo, daí minha amiga falar em "morrer de tristeza". Escolheria a infelicidade em nome do que é moralmente justo.

Por outro lado, se você optar pelo desejo, levaria a agonia para o coração daqueles que não deveriam viver essa agonia. Daí a ideia de "morrer de culpa". Morrer de culpa seria o preço por ter sido fiel ao seu desejo. Abrir mão da felicidade em nome do "certo" pode lhe fazer infeliz. Mas, a infelicidade pode ser um dos hábitos mais profundos em nossas vidas.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Escola Sem Partido e o velho Marx num lugar muito melhor

Falar em Escola Sem Partido tá na moda e vou explicar a importância de pensar seriamente sobre isso. 
Estou eu a fazer aquela faxina em minha biblioteca quando decido revisitar todos os quilos de textos guardados à época da faculdade. Muitos (infelizmente) não lidos, poucos bons e bem menos utilizados que aqueles clichês da faculdade de História: Foucault estava virado do avesso, todo marcado, enquanto Isaiah Berlin quase intocado (hoje as coisas se inverteram...). 
A verdade é que em meio a isso tudo achei "O Manifesto do Partido Comunista". Surpresa nenhuma, a não ser lembrar que aquele texto me foi passado no colegial, pelo professor de História à época. O texto sublinhado e gasto foi carregado comigo durante todos os anos da faculdade e milagrosamente sobreviveu até hoje, escondido nos escombros de minha biblioteca.  Creio sim que devamos estudar até o velho Marx, mas a discrepância é que o professor só nos mostrava uma face da moeda. Pergunte se havia junto ao Manifesto algum texto de Adam Smith ou Locke. Nada. 
Eis a lógica da doutrinação ideológica: as ferramentas não estão todas na mesa, para que o aluno escolha qual a melhor para seu arcabouço futuro ideológico. Apenas a foice e o martelo permaneceram ali. Triste realidade. 
No meu caso de nada adiantou carregar o texto ao longo desses vinte anos: cá estou completamente desvinculada desse tipo de raciocínio pérfido da esquerda. Me serviu aos 15 anos, quando visitava reuniões de partidos "libertários", até hoje (graças a Deus) esquecidos. E garanto que as motivações que me levaram a participar foram muito menos ideológicas do que deveriam, afinal, estava de namorico com alguém daquele grupo. Pondé sempre esteve certo ao falar que gente da esquerda pega mais que da direita, eu garanto. 
Hoje o velho Marx foi pro lixo. Guardado numa pasta no fundo dos textos de Metodologia e Teoria de História, ele já não suportava mais conviver com o peso de Berlin ou Kant sobre suas letras amareladas pela falta de uso. Libertei o Manifesto Comunista para viver num lugar mais apropriado. 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O eu e o outro eu

As histórias de terror do século XIX sempre me encantaram. Com frequência me questiono porque  e então, quando volto aos clássicos, consigo entender um pouco melhor. Ou sentir, não sei. 
O fato é que Frankenstein, Drácula e O Médico e o Monstro formam a tríade mais excitante do que viria a ser o romantismo do século XIX. A decadência do homem moderno, a incapacidade humana em entender a si mesmo, o desenvolvimento científico à serviço do mal; são estas algumas questões colocadas de forma genial por estas histórias. E todas me encantam.
Mas de todas, O Médico e o Monstro me toca de forma estranhamente profunda. 
Que homem pode afirmar que jamais se apavorou diante das próprias escolhas e atos? Quem pode dizer que nunca sentiu uma ponta de vergonha ou culpa ao se olhar no espelho? Que atire a primeira pedra aquele que não esconde no mais profundo (ou superficial) de sua alma um desejo do seu dark side. 
Jekyll e Hyde são absolutamente possíveis em cada um de nós. O melhor e o pior. O bem e o mal. E muitas vezes tudo o que basta para passar de um ao outro é apenas uma leve inclinação. Como quando um funcionário percebe na caligrafia de Hyde os mesmos aspectos de Jekyll. "As duas caligrafias são idênticas em muitos aspectos: só a inclinação é diferente". Somos muitos em um. O que nos transforma de mocinho em bandido muitas vezes é uma pequena inclinação, um leve ato, um detalhe. 
Duas consciências, dois lados, um mesmo corpo. Os conflitos de Jekyll em aceitar o Hyde dentro de si foi  sofrido, mas ao mesmo tempo a possibilidade de soltar o monstro  se tornou irresistível. " A verdade de que o homem não é verdadeiramente um só, mas dois", afirmou Jekyll. 
Leva um tempo para percebermos "o animal dentro de mim lambendo os nacos da memória".  E quando esse lado toma conta do nosso ser, não nos resta muito a fazer a não ser tomar consciência do "horror ao meu outro eu". 
A verdade é que encarar nossos Hydes é também nos olhar no espelho. é também encarar o seu outro eu, por mais odiável que ele seja, ainda é parte de quem você é.
Horrível ou não, espero que, por mais que meu Hyde dê as caras vez ou outra, eu não tenha o mesmo fim que dr. Jekyll. 
Que meu Hyde permaneça (na maior parte do tempo) escondido. 

La reproduction interdite, Magritte.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Reflexões sobre o 'Brexit' - J. P. Coutinho

1. Escrevi na semana retrasada que esperava pela vitória do "sim" no "Brexit". Aconteceu. E amigos preocupados com a minha sanidade perguntaram em coro: "Quando te curas de tanta anglofilia?"

Respondo em defesa da honra: eu não "sofro" de anglofilia. Eu aprendo com os anglo-saxônicos. Existe uma diferença. "Aprender", no contexto, é repetir a célebre observação da historiadora Gertrude Himmelfarb de que o Reino Unido passou por todas as revoluções da modernidade –industrial, econômica, social, cultural etc.– sem nunca ter recorrido à Revolução (com maiúscula).

Modestamente, eu creio que existe algo a aprender com uma cultura política que não tem a vergonhosa e sanguinária folha de serviço da Europa continental no século 20. O Gulag, Auschwitz e até o pequeno Salazar nunca foram a minha praia.

2. Sou europeu até ao tutano. Considero a União Europeia uma das mais preciosas criações políticas do pós-guerra. Sempre fui crítico do excessivo (e, como se vê, autodestrutivo) centralismo de Bruxelas.

Imagino que essas três frases provoquem confusão no auditório (um problema que, lamento, é do auditório). Por incrível que possa parecer, eu não confundo a Europa com a União Europeia. E, para voltar à anglofilia, aqui vai: sempre me senti bem na "pérfida Albion"; mas só me sinto verdadeiramente em casa em Lisboa, Florença ou Budapeste.

Não troco os cafés de Paris por nenhum pub inglês. Rio alto com Evelyn Waugh, mas sei que Proust é outra história. Turner é um impressionista "avant la lettre"; mas o Impressionismo francês não tem termo de comparação. Benjamin Britten ou Vaughan Williams são compositores estimáveis; mas o que é isso quando comparado com Bach, Mozart ou Wagner?

E, filosoficamente falando, admito que a filosofia ocidental seja uma nota de pé de página de Platão. Como dizia um filósofo (britânico).

3. A mídia reagiu ao "Brexit" com estupefacção, horror, desmaios. Isso mostra duas coisas. Em primeiro lugar, a impressionante preparação intelectual que reina em muitas redações.

Mas mostra, sobretudo, como a única ideologia dominante do século 21 é mesmo o "globalismo".
Por "globalismo", entenda-se: a crença de que, para problemas globais, é preciso um governo global. O que implica, naturalmente, que os anacrônicos Estados-nação, com as suas limitadas "democracias liberais", não fazem mais sentido.

John Fonte escreveu um importante livro sobre o tema ("Sovereignty or Submission"), em que relembra que o globalismo sempre fez parte da história do pensamento político. Do poeta Dante ao filósofo Kant, de Victor Hugo a Albert Einstein, são vários os nomes para os quais o mundo é um assunto demasiado importante para ser deixado aos diferentes Estados soberanos.

Fatalmente, o pensamento globalista não perde tempo com uma evidência histórica: não há nada mais perigoso do que alimentar nos povos a certeza de que o destino já não repousa nas suas mãos.

4. Como explicar o "Brexit"? Lendo a histeria publicada, parece que o "Brexit" foi responsabilidade exclusiva de uma extrema direita xenófoba, ignorante e populista.

Sim, essa extrema direita esteve presente com suas boçalidades racistas. Mas, ironicamente, quem decidiu o referendo foram os velhos esquerdistas do Labour –do norte e centro do país–, que votaram contra o próprio líder do partido, Jeremy Corbyn (ele próprio um vociferante eurocético no passado).

Como é evidente, dispenso a companhia dessa turma. E prefiro escutar, e concordar, com autores de direita ou esquerda que sempre questionaram o modelo "globalista" para o Reino Unido quando a história do país está indissociavelmente ligada com a sua tradição de liberdade, soberania e "rule of law".

5. Jean-Claude Juncker, o atual presidente da Comissão Europeia, desabafou em tempos que o problema da União Europeia era ter "europeus em part-time". Entendo a angústia de Juncker. E é provável que, perante o divórcio inglês, exista a tentação de forçar os restantes povos do continente a uma entrega total ao "projeto europeu".

Dizer que essas "engenharias sociais" nunca funcionaram é um cômico eufemismo. Melhor escrever que a União Europeia só sobreviverá (e eu espero que sobreviva) se aceitar europeus em "part-time", permitindo que os países tenham diferentes níveis de integração no projeto, de acordo com as suas vontades e necessidades. Soberanas.

Salvar a União Europeia só depende da União Europeia.

Nós que amamos as mulheres - Pondé (27/06/16)

Nós que amamos as mulheres, seu cheiro, sua beleza, seu tédio, sua inteligência sinuosa, precisamos nos posicionar claramente nesse assunto de violência contra elas. Devemos neutralizar quem faltar com respeito com elas, quem abusar delas, quem assediá-las; enfim, todos esses covardes que andam por aí. Sim, neutralizar pode significar usar da força física contra esses odiadores das mulheres.

Covardes e incapazes de lidar com uma beleza que não lhes pertence, com uma inteligência que os supera, com uma vontade que é só delas.

Não basta ensinar aos meninos nas escolas a respeitarem as meninas (ainda que seja, sim, necessário). Esse ensino não deve passar pela demonização dos anseios deles para com a beleza e doçura delas. Não se deve ensinar que não existem diferenças entre os sexos. E nada nessas diferenças implica em um ser melhor ou pior do que o outro.

Deve-se ensinar aos meninos, desde cedo, nas escolas e em casa, que eles são responsáveis pela integridade física e moral das meninas. Que devem cuidar delas. Quando alguém na escola estiver maltratando uma colega, ele deve defende-la, mesmo que seja na porrada.

Isso nada tem a ver com uma ideia histérica que corre por aí dizendo que mulheres "não precisam" de homens. Todos nós precisamos uns dos outros. A força física maior dos homens deve ser trazida para o debate sobre a violência contra a mulher como um elemento positivo na situação, e não apenas como a "vilã" da história. Se, ao longo dos milhares de anos de nossa espécie, não tivéssemos defendido aquelas que amamos, não teríamos chegado até aqui. E que nenhuma figura provida da mais vil má-fé venha dizer que isso seja "machismo".

Por isso, precisamos "ressensibilizar" os meninos desde cedo, para sua responsabilidade para com a integridade física e moral das meninas. E isso não tem sido muito levado em conta em todas as campanhas e tentativas de combater a violência contra a mulher. Pelo contrário, é quase como se, para estar ao lado das mulheres, o homem devesse ser "menos homem" e defende-las com cartazes na mão dizendo "respect our women", em vez de simplesmente usar da capacidade física masculina para neutralizar o agressor.

Concordo plenamente com o que disseram algumas jornalistas europeias na época do caso de Colônia, na Alemanha, na virada de 2015 para 2016, quando alguns homens abusaram de algumas mulheres no Ano Novo. Nos dias seguintes às agressões, elas reclamaram que, ao invés de fazer frente "à violência covarde com a violência corajosa", os homens que ali estavam optaram por uma "manifestação de repúdio" à violência contra as mulheres no dia seguinte. Como se incapazes fossem de usar a força que lhes é dada pela natureza em favor das mulheres, aqueles homens acabaram por compactuar com o mau uso da maior força física dos homens contra suas vítimas, as mulheres. Homens que se limitam a ir a passeatas contra a violência contra a mulher é como gente que descreve a água enquanto a outra se afoga.
Não há lei que resolva essa cultura de desrespeito à mulher (apesar de que leis são necessárias); não há polícia suficiente que dê conta do patrulhamento das ruas (apesar de que também isso seja necessário); não há conscientização acerca dos direitos das mulheres que seja suficiente (apesar de que campanhas nesse sentido também sejam necessárias); não há mudança nos trajetos dos ônibus à noite para que deixem as mulheres mais perto de casa que dê conta (ainda que isso seja louvável).

É necessário um movimento para que todos os homens que amam as mulheres chamem para si essa responsabilidade. Que sejamos sensibilizados a entender que nossas mulheres, amantes, namoradas, filhas, mães, irmãs, amigas e colegas precisam de nós de modo concreto na interdição ao abuso da força física masculina contra as mulheres. Que sem assumirmos nosso destino de mais fortes, esse problema não acabará.

Há que se inverter o "sinal negativo" da força física masculina neste embate. Sem a participação dos homens que amam as mulheres não daremos conta desse mal.

terça-feira, 31 de maio de 2016

A vida secreta do desejo - Pondé


Sempre que toco no tema do amor romântico, muitos leitores se manifestam. Ao contrário do que parece, muita gente se sente afetada por essa questão. A primeira pergunta que me fazem é: "Você crê no amor romântico?". A resposta é sim. Mas, como os medievais, não creio que seja uma experiência universal e acho que é uma doença encantadora e, por isso mesmo, perigosa.

Mas volto ao assunto hoje devido a uma questão específica que toquei na minha coluna de 16 de maio último ("A doença do amor"), em que discutia alguns especialistas no tema do amor cortês (ou romântico). E acho essa questão muito importante, porque ela incide sobre uma compreensão errônea comum em nossa época da relação entre desejo e maturidade.

A questão é a seguinte: as pessoas mais maduras tendem a descrer no amor romântico, enquanto as mais jovens estão mais propensas a viver essa forma de amor?

As explicações comuns para isso seriam a pouca idade e experiência de vida (como digo na coluna de 16 de maio), que levariam os mais jovens aos delírios amorosos. A favor dessa hipótese está a costumeira afirmação de que Romeu e Julieta teriam no máximo 15 anos de idade. Ou que, na Idade Média, berço da literatura romântica, os homens e mulheres morriam com 30 anos e, portanto, os personagens da literatura cortês não passavam dos 15 anos de idade de novo.

E aí voltamos ao argumento comum de que só jovem crê nessas coisas porque não entende a vida como ela é. Mas o erro está na ideia de que, na Idade Média, pessoas de 15 anos eram "jovens".

"Jovem" é um conceito criado para descrever alguém que não precisa obedecer aos pais como as crianças devem fazê-lo, mas que, ao mesmo tempo, são livres para fazer o que quiserem, sem o peso da responsabilidade dos adultos. "Jovem" é uma das primeiras invenções do enriquecimento do mundo devido a sociedade de mercado. Logo, na Idade Média, não existia "jovem".
Para entender a literatura de amor cortês, você deve pensar o seguinte: o amor romântico só podia acometer pessoas que carregavam responsabilidades e interdições.

Portanto, se transferirmos os pressupostos da dramaturgia medieval para hoje, época em que homens raramente morrem em batalhas e mulheres estão em conventos, o que se revela como o coração do drama são as interdições morais: as vítimas são casadas e carregam responsabilidades da vida adulta.

Qual é a conclusão então da relação entre idade e amor romântico? A conclusão é de que um jovem de hoje dificilmente viveria o amor romântico tal como foi descrito na Idade Média. Mas homens e mulheres adultos, casados, com filhos e responsabilidades profissionais e sociais, são os verdadeiros candidatos à doença do amor hoje.

Por isso, são os mais maduros que estão a mercê desse flagelo, e não os mais jovens, que, costumeiramente, não têm quase nenhuma responsabilidade determinante em suas vidas.

O "amor fora de lugar" ocorre como um desejo que não pode se realizar plenamente devido a uma estrutura moral que lhe precede. A condenação do desejo implica em sua piora como "pressão", que nunca cessa de se manifestar, corroendo o cotidiano dessa estrutura que lhe precede. O amor romântico só existe quando os amantes não podem vivê-lo porque para isso destruiriam a própria vida e de outras pessoas que não mereciam sofrer.

O erro da associação do amor romântico à idade "jovem" é a não percepção, típica de nossa época, da lógica do desejo em questão.

Perdemos a capacidade de desejar na medida em que declaramos que "é proibido proibir". Os jovens logo deixarão de desejar.

E, aqui, chegamos a outra incompreensão decorrente dessa: entendemos pouco do amor romântico porque esvaziamos nossa cultura da noção de conflito entre desejo e virtude como um dos motores essenciais do drama moral humano. O drama romântico pressupõe o desejo encantador acompanhado da terrível experiência da culpa. Só os olhos vidrados de culpa enxergam o combate entre desejo e virtude na alma.

A vida secreta do desejo é esse desespero que, na mesma medida em que encanta, destrói.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Essa beleza frágil e imensa - Pondé

Você já se sentiu infinitamente pequeno diante de algo imenso e infinito? Já percebeu o quão frágil é tudo à sua volta, inclusive, e principalmente, você? Já pensou que um dia o sol se apagará e tudo que você conhece deixará de existir?

Já pensou que em meio a tantas pessoas que transaram desde a mais distante ancestralidade humana, a "cadeia de orgasmos" entre elas é a causa eficiente da sua existência hoje? Já imaginou quanta coisa podia ter dado errado e você não existir? Aqui não estamos muito distantes do silêncio que muitas vezes se impõe quando testemunhamos uma criança vir ao mundo. Esse silêncio é nossa consciência ancestral de que devemos nossas vidas a todos os que viveram, lutaram e morreram antes de nós. A primeira palavra que devíamos aprender a falar é "obrigado". Uma cultura que não cultiva o respeito pelos ancestrais é uma cultura de ingratos. Deveríamos assistir ao parto de joelhos.

Bastava uma dorzinha de cabeça numa das fêmeas ancestrais ou uma brochada num dos machos ancestrais ou um dos dois ser comido por algum predador, e você não estaria hoje aqui lendo a Folha.

Logo, é quase um milagre esse instante em que nos encontramos. Assim como toda a cadeia de eventos que envolve a sua vida e a de cada um de nós.

Diante de tantas variáveis infinitas, muita gente sente um certo agradecimento por ter nascido e pelas coisas que giram à nossa volta, tornando possíveis nossas vidas.

Nossa atitude deveria ser uma de completa reverência diante de tudo isso. Esse tipo de reverência desapareceu do nosso repertório porque somos uns mimados que acham que o universo é "um direito" cósmico. E que todos que transaram em nossa longa cadeia de ancestrais o fizeram "por nossa causa".

Essa humildade diante da simples existência não é muito distante da ideia de graça no cristianismo (e também no judaísmo e islamismo). Dai que qualquer teólogo competente sabe que toda boa teologia começa agradecendo. Coisa pouco comum hoje em dia. Uma sociedade dominada pela ideia de "direitos" é necessariamente uma sociedade que cultiva a ingratidão. Nada mais distante da espiritualidade semita (das três religiões abraâmicas citadas acima) do que uma teologia que "pede". A teologia começa agradecendo o fato de respirarmos. Ou, como diria Santo Agostinho (354-430), devemos agradecer pela língua que temos para falar.
Toda espiritualidade séria começa com a consciência do quão improvável é a nossa existência e a de todas as demais coisas à nossa volta. A fina relação entre essa enorme improbabilidade e nossa ínfima existência é que produz o sentimento de milagre, agradecimento e graça.

Que nenhum ateu inteligentinho queira me dar uma lição de estatística ou de acaso cego. Guarde-as para ateus inseguros e de alma tosca. A cegueira do acaso apenas torna a beleza do mundo ainda maior.

O que vem a ser a religião? Essa pergunta não é fácil de responder. Muitos tentam buscar uma resposta que sirva pra todas as religiões, mas isso não é evidente.

Entretanto, existem algumas ideias interessantes sobre essa busca de um "denominador comum" para as religiões que funcionam razoavelmente bem. E algumas delas passam justamente por esse sentimento de agradecimento pelo simples fato de sermos capazes de testemunhar toda essa beleza, ao mesmo tempo frágil e imensa. E de nos sentirmos de alguma forma dependentes dela.

O teólogo alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834), fundador da hermenêutica, disciplina que estuda os modos de interpretação de culturas e textos, é considerado o pai fundador dos estudos não religiosos das religiões. A história desses estudos é longa e não vou me ater a todas as controvérsias que a matéria exige.

O que me interessa aqui é o "denominador comum" que Schleiermacher pensava estar presente em todas as religiões. Para ele, as religiões são o fruto dessa percepção profunda de nossa dependência para com esse infinito que nos sustenta e, ao mesmo tempo, nos lembra o quão efêmero isso tudo é. Como o pó que se vai com o vento, mas que é capaz de ver o rosto de Deus.