domingo, 24 de fevereiro de 2013
Silver Linings Playbook
Não tinha expectativa nenhuma para Silver Linings Playbook (com o horroroso título em português de O lado bom da vida, argh). Mas posso afirmar que superaria qualquer expectativa que quiça existisse.
A câmera rápida conduz o roteiro: o que sobre de humano no ser depois de algumas rasteiras da vida? Um casamento desfeito pela traição e outro pela morte. Nada demais. Nem de tão pouco assim.
Afinal, do que é feita a realidade e a sanidade mental dos casais que se amam ou pensam se amar? A vida seria muito mais fácil se essas respostas fossem claras e diretas. Mas não é. E é assim que a vida segue: destroçada cotidianamente por nossas relações, mas reconstruída quantas vezes o coração suportar.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Texto gnóstico
"Você veio da casa da vida.
Você veio: o que trouxe para nós?
Eu trago que vocês nao devem morrer,
que suas almas não devem ser restringidas.
Eu lhes trago a vida para o dia da morte
E alegria par ao dia de melancolia.
Eu lhes trago repouso,
o qual na inquietação das nações não pode ser encontrado."
Liturgia de Mandeão.
Você veio: o que trouxe para nós?
Eu trago que vocês nao devem morrer,
que suas almas não devem ser restringidas.
Eu lhes trago a vida para o dia da morte
E alegria par ao dia de melancolia.
Eu lhes trago repouso,
o qual na inquietação das nações não pode ser encontrado."
Liturgia de Mandeão.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Fechando as férias
Um filme politicamente incorreto; um bom filme tennager; um péssimo filme "cult".
Django Livre
As Vantagens de Ser Invisível
Amores Imaginários
Django Livre é um típico Tarantino, ou seja: midiático, sangrento e engraçado. Destaque para a trilha sonora, como sempre impecável e muito pertinente. As quase três horas de filme são muito bem aproveitadas.
As vantagens de ser invisível é um filme pouco pretensioso mas excelente para adolescentes: não é bobo, tem bons atores e aponta temas duros para a idade em questão (chega a ser um pouco exagerado nisso, mas afinal, qual adolescente não exagera em seus sentimentalismos?). E a trilha sonora: Bowie, Smiths e cia. Deliciosa.
Tinha certa expectativa com a produção canadense Amores Imaginários, o que me deixou bastante frustrada. É um filme que abusa da câmera lenta - enjoa. Não há enredo. Os atores são lindos mas pouco expressivos. Não há nem como classificá-lo: independente ruim, cult frustrado (e o que é cinema cult afinal? Existe isso?). Pelo menos os ouvidos foram salvos: Vive la Fête e uma versão italiana de Bang, Bang.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
As faces do horror
As duas faces do horror: a esposa estacada, inerte, muda e
distante, com o olhar vidrado e sem vida; o marido encarando-a com espanto,
falta de entendimento e terror.
Essa é uma das cenas inicias do filme Amor, de Michael
Haneke, vencedor da Palma de Ouro, do Globo de Ouro de filme estrangeiro e
concorrente do Oscar 2013. O tema é mais banal do que parece: a velhice. E para
além disso está o verdadeiro enredo: nunca há uma saída bela e tranquila para
esse fato.
Haneke é famoso por seus filmes ultraviolentos e de temas
bem pouco palatáveis (como a gênese do autoritarismo na Alemanha pré-Segunda
Guerra). Em Amor ele faz transbordar outro tipo de linguagem - a do silêncio e
da tristeza. A violência também se faz presente desta vez, mas ela transparece
num formato muito mais cruel do que assassinatos sangrentos e tortura. Ela se
mostra naquela forma inevitável da morte que nos corroerá a todos, pois
estaremos de um lado ou de outro. Resta a dúvida de qual seria o menos
doloroso: perceber (lentamente ou de repente) que o corpo já não responde aos
mandos da mente e que esta, por sua vez, já não desempenha o mesmo papel e
definhar até se perder de si, até se tornar qualquer coisa que não um humano ou
ver isso infligido ao outro, àquele que se ama e ter a consciência de que não
há solução e se, por ventura essa solução despontar, será ainda mais cruel e
inevitável.
Por mais que o mundo contemporâneo insista em nos fazer
descer goela abaixo a ideia de "melhor idade", todos nos deparamos,
de uma forma ou de outra, com a decrépita dissolução da vida que o
envelhecimento nos traz. E no final, não poderemos nem ao menos escolher de
qual lado estaremos. Reze, para que no seu caso, seja o menos pior.
sábado, 19 de janeiro de 2013
Stradivarius
Liv & Ingmar
2012
Dheeraj Akolkar
Sem dúvida o melhor documentário dos últimos tempos. Delicado, sensível e duro ao mesmo tempo.
Tratando-se de Bergman, não poderia ser diferente.
Liv Ullmann descreve o retrato mais íntimo de um Bergman pouco místico e muito real: o diretor único e talentoso, o marido ciumento e possessivo, o amigo de todos os momentos.
E daqui surgiu o relato que julgo ser o mais significativo e íntimo que alguém possa fazer sobre o outro: Liv se queixava a Bergman, já depois de findado o casamento entre os dois, que os jornalistas sempre se interessavam em saber como havia sido trabalhar com este gênio do cinema que era Bergman. Ingmar então responde que ela, Liv, não deveria ficar triste com isso, pois ela era o seu Stradivarius.
Essa não foi apenas a maior declaração de amor que já tive conhecimento, pois ser o Stradivarius de alguém ultrapassa os limites do amor. Ser os Stradivarius de alguém significa ser sua obra-prima, sua mais perfeita criação; significa superar qualquer limite do normal, do ordinário. É algo quase divino.
Essa é uma relação para poucos. Digna de um Bergman e de uma Liv.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Antropogênese
De pó e lágrimas foi feito o barro que nos criou.
Aristóteles errou: somos animais sentimentais.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Retrospectiva de minha ridícula vida: Cool stuffs
Reencontro maravilhoso
Casal lindo
Exposição Gromley (São Paulo)
Exposição Caravaggio (Belo Horizonte)
Sambaqui (Ilha do Cardoso)
Inauguração da sala de exposição Seminário Santo Antônio
Retrospectiva de minha ridícula vida: Viagens
Otimismo
Estou começando o ano de forma extremamente otimista.
Muito estranho, mas vou aproveitar essa fase (enquanto não passa).
Muito estranho, mas vou aproveitar essa fase (enquanto não passa).
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
River - Madeleine Peyroux
It's coming on Christmas
They're cutting down trees
They're putting up reindeer
And singing songs of joy and peace
I wish I had a river
I could skate away on
But it don't snow here
It stays pretty green
I'm going to make a lot of money
Then I'm going to quit this crazy scene
I wish I had a river
I could skate away on
I wish I had a river so long
I would teach my feet to fly
I wish I had a river
I could skate away on
I made my baby cry
He tried hard to help me
You know, he put me at ease
And he loved me so naughty
Made me weak in the knees
I wish I had a river
I could skate away on
I'm so hard to handle
I'm selfish and I'm sad
Now I've gone and lost the best baby
That I ever had
Oh I wish I had a river
I could skate away on
I wish I had a river so long
I would teach my feet to fly
Reportagem para a IHU - O deus de Lars von Trier
Respeito e reverência diante do mal: o deus de Lars von Trier
Flávia Arielo aponta que o filme Anticristo aborda Deus de forma maléfica, ou seja, “se há alguma relação existente entre Deus e a pertença do mal no mundo, isso só pode ocorrer a partir do pressuposto de Deus ser mal”
Por: Graziela
Dogville, Anticristo e Melancolia são filmes essencialmente teológicos, pontua Flávia Arielo
Ao analisar o filme Anticristo, de Lars von Trier, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Flávia Arielo explica que, por diversos momentos, “o diretor centraliza a questão do mal na natureza, que nesse caso, pode ser entendida tanto como natureza física quanto a natureza do homem”. Para ela, a relação entre Deus e o mal na obra de von Trier se dá de forma bastante peculiar em cada um dos últimos três longas-metragens do diretor – Dogville, Anticristo e Melancolia – que são, segundo Arielo, filmes essencialmente teológicos. E constata que “ao que tudo indica, através de seus filmes, Lars von Trier sugere o ser humano completamente desconectado, apartado de Deus. A ideia de Deus está implícita em muitas formas, (…) mas Ele parece não se importar com o que acontece com sua criação. Na pior das hipóteses, o Deus de Trier não apenas nos abandonou como também pode contribuir para o nosso sofrimento. O diretor não dá esperanças para essa relação em nenhum de seus filmes”. Por fim, Flávia conclui: “o fim de Anticristo demonstra que, para a razão, a única saída para a dor é a morte do mal, ou daquilo que ele representa”.
Flávia Santos Arielo possui graduação em História pela Universidade Estadual de Londrina e é especialista em História da Arte pela mesma universidade. Leciona História e História da Arte no ensino médio. É mestranda do curso de Ciências da Religião da PUC-SP.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como o conceito de mal e de maldade aparece na obra Anticristo de Lars von Trier?
Flávia Arielo – Lars von Trier criou uma atmosfera fílmica que vai de encontro com a ideia de mal: as cenas são esteticamente belas, têm tratamentos que ressaltam as cores e cenas em câmera lenta. Tudo isso acaba por contrapor a ideia de bem e mal, a começar pela cena inicial, o prólogo, que nos leva à problemática central do filme: o preto e branco, a ópera como trilha sonora e as cenas lentas nos conduzem à beleza, mas então uma das formas do mal se mostra pela primeira vez – a morte de uma criança. O mal exposto no filme, em princípio, pode levar o espectador menos atento a deduções superficiais, como se o mal residisse apenas em fatores como a morte, a depressão e a perda. Mas o repertório teológico de Trier vai além disso: o mal está centrado na personagem feminina do filme e em sua descoberta. Interpretada por Charlotte Gainsbourg , a mulher faz afirmações ao longo do filme que nos indicam a posição de Trier sobre o mal. “A natureza é o templo de Satã”, diz ela, ao constatar que a natureza humana é má. Por diversos momentos o diretor centraliza a questão do mal na natureza, que nesse caso pode ser entendida tanto como natureza física quanto a natureza do homem. A desordem dessa natureza é exposta, por exemplo, em um das cenas mais fortes do filme, quando uma raposa se autoflagela e anuncia em alto e bom tom: “O caos reina”.
IHU On-Line – Como se dá a relação entre Deus e o mal na filmografia de Lars von Trier?
Flávia Arielo – Destaco, em particular, os últimos três longas-metragens do diretor – Dogville , Anticristo e Melancolia – como filmes essencialmente teológicos. Há que ressaltar que, como dinamarquês, Lars von Trier nasceu num país embebido pela Reforma, apesar de declarar que cresceu num ambiente familiar secular. A relação entre Deus e mal se dá de forma bastante peculiar em cada um destes filmes. Em Dogville (2003), Deus está caracterizado como o chefe da máfia, um gangster que impele sua filha – Grace (Graça) – aos piores infortúnios na cidade de Dogville. Ao final, num belo diálogo entre o gangster e Grace, tudo gira em torno de entender quem é o mais arrogante entre os dois. Em Melancolia (2011), Deus está ausente; Ele silencia e permite que a vida na Terra seja completamente fulminada por outro planeta, muito maior e mais belo, chamado Melancolia. Já em Anticristo (2009) essa relação dá demonstrações de que, se há um Deus e se fomos feitos à sua imagem e semelhança, então esse Deus é mal.
IHU On-Line – Para Lars von Trier, o que define o ser humano e sua relação com Deus?
Flávia Arielo – Ao que tudo indica, através de seus filmes, Lars von Trier sugere o ser humano completamente desconectado, apartado de Deus. A ideia de Deus está implícita em muitas formas, como já dito, mas Ele parece não se importar com o que acontece com sua criação. Na pior das hipóteses, o Deus de Trier não apenas nos abandonou como também pode contribuir para o nosso sofrimento. O diretor não dá esperanças para essa relação em nenhum de seus filmes.
IHU On-Line – A partir da obra cinematográfica de Trier, em especial o Anticristo, o que define as escolhas humanas a partir do livre-arbítrio dado por Deus? Qual a força do mal nesse sentido?
Flávia Arielo – Para muitos filósofos e teólogos, o mal reside exatamente em nossas escolhas, no livre-arbítrio. Essa é uma das formas de retirar de Deus o peso da efetividade do mal. Neste filme pesa muito mais a ideia de destino do que de livre-arbítrio: somos maus por natureza e é aí que reside o sofrimento da descoberta do personagem feminina do filme. A mulher escolhe ser má, pois essa é sua essência, é assim que a humanidade é. Mas há uma escolha dessa personagem, em particular, que é primordial no filme: em uma das cenas finais o diretor revisa o prólogo e mostra o momento em que o casal está fazendo sexo no quarto, mas por outro ângulo de câmera, revelando que a mulher vê quando o filho vai saltar pela janela. A escolha foi pelo sexo e não pelo filho. O mal se revela nessa escolha.
IHU On-Line – O que seria a teodiceia negativa presente no filme Anticristo?
Flávia Arielo – Teodiceia, como definida primeiramente por Leibniz (século XVII), é a justificação racional de Deus. O filósofo tentava racionalizar de que forma poderia salvar Deus do julgamento daqueles que afirmavam não haver compatibilidade entre Deus ser onipotente e bom ao mesmo tempo em que a experiência mostrava que existia o mal no mundo. Dessa forma, a teodiceia nasce para compatibilizar Deus e o mal, alocando a existência do mal nas escolhas do homem, no livre-arbítrio. Anticristo aborda Deus de forma maléfica, ou seja, se há alguma relação existente entre Deus e a pertença do mal no mundo, isso só pode ocorrer a partir do pressuposto de Deus ser mal; assim, a teodiceia se torna negativa: se há alguma razão em entender o porquê do mal no mundo, do sofrimento e da dor, isso só pode ser obra de um Deus maléfico.
IHU On-Line – Em que sentido o filme Anticristo pode nos ajudar a compreender até onde alguém pode chegar para lidar com a dor?
Flávia Arielo – O filme mostra uma mãe em agonia, primeiramente, por que perdeu um filho. Sua dor e seu sofrimento parecem não ter fim. O marido, interpretado por Willem Dafoe , é um terapeuta que tenta tirar a esposa de seu sofrimento. Mas a escolha de Lars von Trier é ridicularizar a terapia moderna, encarnada no marido; a esposa, por diversos momentos, diz a ele que o problema é maior, que o sofrimento vai além do luto e da perda, que a dor não tem fim. A dor exposta pela mulher do filme não é em si a dor da perda do filho e sim a dor de enxergar o mal inserido na natureza humana e na natureza de Deus. O marido, de início, completamente imerso em sua racionalidade, não dá credibilidade às falas de sua mulher. Em determinado momento, o homem é tocado pelo mal que a esposa expõe e ainda assim custa a crer no que ele representa. O fim de Anticristo demonstra que, para a razão, a única saída para a dor é a morte do mal, ou daquilo que ele representa.
IHU On-Line – Como a relação entre medo e fé (ou a falta dela) aparece na obra em questão?
Flávia Arielo – O medo se evidencia no filme através das descobertas da mulher sobre a origem, a natureza humana. Ela se deprime, se angustia, e ao final constata não haver saída. Se existe alguma sombra de fé nessa obra, ela se dá pelo viés da razão e não pelo religioso. E mesmo essa fé racional é desmoralizada pelo diretor. Há uma cena bastante esclarecedora sobre isso: o marido faz uma lista dos medos da esposa, elencando-os hierarquicamente. A saída proposta por ele é que a mulher deve enfrentar diretamente o problema, ir até sua raiz. Um dos maiores medos da esposa é voltar à floresta do Éden, local onde escrevia sua tese. O marido então pede que ela se imagine deitando na grama do Éden, se misturando à grama. A imagem cinematográfica mostra a mulher se fundindo ao verde da grama até quase desaparecer. Essa seria a saída racional para o medo descartada e devassada por Trier. Tanto a razão quanto a fé – em qualquer sentido – não dão conta de acabar com o medo.
IHU On-Line – Quem é o Anticristo na visão de Lars von Trier?
Flávia Arielo – É a revelação do Deus mau, um Deus que jogou toda sorte de males no mundo: a dor, a perda, o sofrimento, a angústia, a depressão, a morte. É um Deus que criou o mundo a sua imagem e semelhança e que a razão não dá conta.
IHU On-Line – Gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre o tema?
Flávia Arielo – O filme foi duramente criticado quando de seu lançamento. O diretor foi taxado de sexista e misógino. Creio que o filme vai muito além dessa visão leviana, pois se insere nas temáticas teológica e filosófica, muito caras ao diretor. Apesar do teor pesado e das cenas pouco palatáveis, Anticristo deve ser visto e interpretado como quem se depara com o mal: com respeito e reverência.
sábado, 15 de dezembro de 2012
Desejo
Desejo, primeiro, que você ame,e que, amando, também seja amado. E que se não for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim, mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que você tenha amigos que, mesmo maus e inconsequentes, sejam corajosos e fiéis, e que pelo menos em um deles você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos, nem poucos, mas na medida exata para que, algumas vezes, você se interpele a respeito de suas próprias certezas.
E que, entre eles, haja pelo menos um que seja justo, para que você não se sinta demasiado seguro. Desejo, depois, que você seja útil, mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante, não com os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com os que erram muito e irremediavelmente, e que fazendo bom uso dessa tolerância, você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem, não amadureça depressa demais, e que, sendo maduro, não insista em rejuvenescer, e que, sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste. Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra que o riso diário é bom, o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra, com a máxima urgência, acima e a despeito de tudo, que existem oprimidos, injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,alimente um cuco e ouça o joão-de-barro erguer triunfante o seu canto matinal, porque, assim, você se sentirá bem por nada. Desejo também que você plante uma semente, por mais minúscula que seja, e acompanhe o seu crescimento, para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano coloque um pouco dele na sua frente e diga "isso é meu", só para que fique bem claro quem é o dono de quem. Desejo também que nenhum de seus afetos morra, por ele e por você, mas que se morrer, você possa chorar sem se lamentar, sofrer e sem se culpar.
Desejo por fim que você, sendo um homem, tenha uma boa mulher, e que, sendo uma mulher, tenha um bom homem e que se amem hoje, amanhã e no dia seguinte, e quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer, não tenho mais a te desejar.
Victor Hugo
Desejo, pois, que não seja assim, mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que você tenha amigos que, mesmo maus e inconsequentes, sejam corajosos e fiéis, e que pelo menos em um deles você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos, nem poucos, mas na medida exata para que, algumas vezes, você se interpele a respeito de suas próprias certezas.
E que, entre eles, haja pelo menos um que seja justo, para que você não se sinta demasiado seguro. Desejo, depois, que você seja útil, mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante, não com os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com os que erram muito e irremediavelmente, e que fazendo bom uso dessa tolerância, você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem, não amadureça depressa demais, e que, sendo maduro, não insista em rejuvenescer, e que, sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste. Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra que o riso diário é bom, o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra, com a máxima urgência, acima e a despeito de tudo, que existem oprimidos, injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,alimente um cuco e ouça o joão-de-barro erguer triunfante o seu canto matinal, porque, assim, você se sentirá bem por nada. Desejo também que você plante uma semente, por mais minúscula que seja, e acompanhe o seu crescimento, para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano coloque um pouco dele na sua frente e diga "isso é meu", só para que fique bem claro quem é o dono de quem. Desejo também que nenhum de seus afetos morra, por ele e por você, mas que se morrer, você possa chorar sem se lamentar, sofrer e sem se culpar.
Desejo por fim que você, sendo um homem, tenha uma boa mulher, e que, sendo uma mulher, tenha um bom homem e que se amem hoje, amanhã e no dia seguinte, e quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer, não tenho mais a te desejar.
Victor Hugo
domingo, 18 de novembro de 2012
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
domingo, 27 de maio de 2012
quinta-feira, 26 de abril de 2012
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Origem da Religião na pré-história - Pondé
Muitos leitores me perguntaram o que aquela peça kafkiana cujo título era "Páscoa" queria dizer na coluna do dia 2/4/2012.
O texto era simplesmente isto: a descrição de um ritual religioso muito próximo dos centenas de milhares que devem ter acontecido em nossa Pré-História.
Horror puro, mas é assim que deve ter começado toda a gama de comportamentos que hoje assumimos como cheios de significados espirituais. Entender a origem de algo "darwinianamente", nada tem a ver com a "cara" que esse algo possui hoje. Vejamos o que nos diz um especialista.
O evolucionista Stephen Jay Gould (1941-2002), num artigo de 1989 cujo título é "The Creation Myths of Cooperstown", compara a origem mítica do beisebol (supostamente nascido em território americano e já "pronto") com a explicação evolucionaria do beisebol.
Gould está fazendo no texto uma metáfora do que seria uma explicação evolucionária de um esporte. Ele narra como o beisebol "evoluiu" a partir de comportamentos humanos casuais que na origem consistiam apenas em bater com prazer em frutas redondas ou em cabeças com pedaços de pau, e que a forma final aconteceu na Inglaterra e não nos EUA, muito tempo depois.
A revolta dos americanos orgulhosos de sua mítica criação do beisebol, com a "tese monstruosa" do evolucionista Gould, foi óbvia.
Segundo ele, o que caracteriza a diferença entre conhecer a origem darwiniana de algo, por exemplo, a religião, e fazer mitos sobre ela, é saber que antes de tudo o sentido que a ela damos hoje em dia (religião = "o Bem"?) nada tem a ver com sua origem e que sua evolução deve ter ocorrido a partir de fragmentos desconexos de comportamentos, afetos e ideias, derivados dos subprodutos fisiológicos das mutações genéticas e físicas que sofremos em nossa pré-história.
Cerca de 500 anos atrás praticávamos canibalismo cerebral ritualístico e colocávamos as cabeças íntegras em posições geométricas como numa espécie de santuário.
Achados semelhantes datados de cerca de 300 mil anos atrás, no Paleolítico - como o que descrevo ao final do texto da semana passada -, apontam para rituais semelhantes (ver "A Prehistory of Religion, Shamans, Sorcerers and Saints", de Brian Hayden, Smithonian Books, Washington, 2003).
Praticávamos canibalismo ritualístico de cérebros humanos, e crianças sempre foram mais fáceis de serem capturadas -claro, de outros bandos. Tirávamos os cérebros com cuidado para depois colocarmos as cabeças em posições geométricas e com elas fazíamos algo como o que hoje chamamos de santuário.
Semana passada foi Páscoa. Este ano, ela coincidiu com a semana que começa o Pessach, Páscoa judaica. Quando Jesus jantava com seus apóstolos na Quinta-Feira Santa, Ele celebrava o Pessach.
Para os judeus, essa data representa a saída da escravidão do Egito. Para os cristãos, a Páscoa também celebra a liberdade do povo de Israel, mas ressignificando-a como uma liberdade não só política, mas a liberdade da alma diante das várias escravidões da vida.
Os hebreus pintaram as portas com sangue de cordeiro, seguindo a ordem de Deus, para que o anjo da morte não matasse seus primogênitos como mataria os dos egípcios. Esta era a última das pragas que levaria os hebreus à liberdade.
Primogênitos seriam mortos e muitos deles eram crianças inocentes, não?
Cristãos comem o corpo e bebem o sangue de Cristo, um inocente. E "nós" o matamos ou você duvida de qual lado você estaria na história?
Aqueles que pensam que nossos ancestrais monstruosos nada nos ensinam, se enganam.
O grau de parentesco entre a "páscoa" deles e a nossa não é tão distante assim. Celebramos a morte de crianças (egípcias antigas), bebemos sangue e comemos o corpo (simbolicamente) de um inocente, mas isso tudo pra nós representa vida, liberdade.
Afinal, o que teria representado para nossos patriarcas o que eles faziam? Seriam as crianças que eles comiam as "crianças egípcias" deles? Ou seriam elas seus "cordeiros inocentes" por serem crianças?
Enfim, duas certezas: a "Páscoa" melhorou muito nos últimos 300 mil anos e Darwin ainda é diabólico.
sábado, 7 de abril de 2012
Fragilidade
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa
(SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, "Terror de te amar", em Antologia Poética)
quarta-feira, 28 de março de 2012
Habemus Papam
Habemus Papam
Nanni Moretti
2011.
O que era para ser uma comédia italiana (escrachada, gritada, cheia de sexo e nudez, como de costume italiano), se tornou para mim um drama em moldes trágicos.
O ator e diretor Nanni Moretti aborda a escolha e ascensão de um papa ao poder de forma cômica sim, mas o toque trágico está presente em quase todas as cenas em que o então eleito papa aparece.
O filme adentra a vida no Vaticano e de seus cardeais. Logo no início do filme já se tem um dilema moral: a câmera caminha por cada um dos cardeais e lê seus pensamentos, que por fim, se unem num uníssono pedido - eu não, Senhor!
A escolha do papa é feita e lê-se nos rostos de cada cardeal o alívio por não ter sido escolhido e a satisfação por ter a quem seguir, a não ser por um deles: o próprio escolhido. O enredo se dá a partir daí, acompanhando a angústia e o fardo que é sustentar as roupas e o peso moral do que é ser o Papa.
Nanni Moretti aparece como o psicanalista contratado para resolver a indecisão do então escolhido papa em seguir a diante. Impossibilitado de tratar assuntos típicos da psicanálise - infância, mãe e desejos reprimidos - o psicanalista se vê de mãos atadas, mesmo ouvindo o choro sofrido do papa numa oração à Deus.
O papa acaba por fugir do Vaticano e se mistura à população de Roma. Como um simples velho local, ele participa da vida ordinária, dorme, come e se locomove como um anônimo, até se deparar com um grupo de teatro que ensaia uma peça do russo Tchecov. Cenas lindas da sequência que segue, onde o papa e um ator declamam parte de A Gaivota.
Moretti é assumidamente ateu e socialista e isso sem dúvida transparece em alguns momentos de sua crítica à igreja católica. Mas essa crítica não se limita à religião em si, mas também à psicanalise, a nossa religião moderna.
São muitos os dilemas propostos pelo filme, mas o que ficou é exatamente o questionamento sobre o significado em torno da figura papal: um duelo entre o divino e o humano. A impossibilidade de tratamento e resolução dos conflitos do papa pela Igreja ou pelo psicanalista demonstra claramente em que ponto estamos: nem a religião nem a medicina, estamos mesmo perdidos.
E o sentimento ao final do filme, ao acender das luzes do cinema foi exatamente este. Não há saída.
Assinar:
Postagens (Atom)


































