domingo, 22 de janeiro de 2017

A Chegada - o fardo do tempo

O filme A Chegada (2016, Dennis Villeneuve) foi para mim um dos melhores rebentos de 2016. O enredo que, em princípio, poderia fazer a cabeça dos amantes de ficção científica - e somente isso - vai maravilhosamente além das expectativas.
Quando 12 naves extraterrestres pousam em diferentes locais do mundo ao mesmo tempo, o que nos resta? A resposta de Villeneuve: nos resta a linguagem, a comunicação. Nada mais difícil do que essa tarefa, a de entender e nos fazer entender.
Uma linguista (Amy Adams) é chamada para a árdua tarefa de fazer a comunicação homem-alienígena, e tem a ajuda de um físico (Jeremy Renner), que logo de cara anuncia que mais importante que a conversa, é a ciência. E logo então se pode inferir que um será o complemento perfeito do outro nessa relação: humana e exata ao mesmo tempo.
Mas para além da ficção científica e dos aliens - que passam a se comunicar diretamente com a linguista - há no enredo uma delicada relação do homem com outro extraterrestre: o tempo.
O tempo é o personagem mais importante dessa trama. Explico: Louise, a linguista, recebe um presente dos aliens, que entenderá apenas nos momentos finais do filme. Os ets (chamados de heptapodes) afirmam que Louise tem a arma para resolver qualquer questão humana importante: o domínio sobre o presente, o passado e o futuro, ou seja, o conhecimento completo do tempo.  E é aqui  que surge um dos conceitos mais fascinantes que Villeneuve parece propor: se você soubesse exatamente o que seria da sua vida, do começo ao fim, a viveria ainda assim? Eis a questão que um dos mais conhecidos filósofos indagou; Nietzsche com seu eterno retorno nos propõe o seguinte, em Gaia Ciência:


E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.

– Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela”.

Viveria essa vida, a mesma, da mesma forma, de novo e de novo e de novo? Essa é uma questão que não ouso responder. Mas Villeneuve responde a Nietzsche através de Louise. Com o que há de melhor e mais dolorido, dominando o tempo e a linguagem, a personagem aceita o fardo que só o tempo nos traz.





sexta-feira, 8 de julho de 2016

O eu e o outro eu

As histórias de terror do século XIX sempre me encantaram. Com frequência me questiono porque  e então, quando volto aos clássicos, consigo entender um pouco melhor. Ou sentir, não sei. 
O fato é que Frankenstein, Drácula e O Médico e o Monstro formam a tríade mais excitante do que viria a ser o romantismo do século XIX. A decadência do homem moderno, a incapacidade humana em entender a si mesmo, o desenvolvimento científico à serviço do mal; são estas algumas questões colocadas de forma genial por estas histórias. E todas me encantam.
Mas de todas, O Médico e o Monstro me toca de forma estranhamente profunda. 
Que homem pode afirmar que jamais se apavorou diante das próprias escolhas e atos? Quem pode dizer que nunca sentiu uma ponta de vergonha ou culpa ao se olhar no espelho? Que atire a primeira pedra aquele que não esconde no mais profundo (ou superficial) de sua alma um desejo do seu dark side. 
Jekyll e Hyde são absolutamente possíveis em cada um de nós. O melhor e o pior. O bem e o mal. E muitas vezes tudo o que basta para passar de um ao outro é apenas uma leve inclinação. Como quando um funcionário percebe na caligrafia de Hyde os mesmos aspectos de Jekyll. "As duas caligrafias são idênticas em muitos aspectos: só a inclinação é diferente". Somos muitos em um. O que nos transforma de mocinho em bandido muitas vezes é uma pequena inclinação, um leve ato, um detalhe. 
Duas consciências, dois lados, um mesmo corpo. Os conflitos de Jekyll em aceitar o Hyde dentro de si foi  sofrido, mas ao mesmo tempo a possibilidade de soltar o monstro  se tornou irresistível. " A verdade de que o homem não é verdadeiramente um só, mas dois", afirmou Jekyll. 
Leva um tempo para percebermos "o animal dentro de mim lambendo os nacos da memória".  E quando esse lado toma conta do nosso ser, não nos resta muito a fazer a não ser tomar consciência do "horror ao meu outro eu". 
A verdade é que encarar nossos Hydes é também nos olhar no espelho. é também encarar o seu outro eu, por mais odiável que ele seja, ainda é parte de quem você é.
Horrível ou não, espero que, por mais que meu Hyde dê as caras vez ou outra, eu não tenha o mesmo fim que dr. Jekyll. 
Que meu Hyde permaneça (na maior parte do tempo) escondido. 

La reproduction interdite, Magritte.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O feminismo e a natureza humana

Nunca gostei do feminismo: acho-o grotesco, infundado, de mau gosto e burro. Há tempos que a luta feminista se tornou um machismo disfarçado de peitos de fora. Sempre que sou questionada em relação à luta das mulheres, respondo que tudo que consegui foi por mérito, estudo e força de vontade própria. Não desmereço as verdadeiras batalhadoras femininas: mães e avós que cuidam de filhos, netos, trabalham fora, desdobrando-se entre casa-trabalho-família. 
"Mas e a violência doméstica?", me perguntam. Respondo: o homem violento é violento em si, por natureza. Continuará sendo com os filhos, os cachorros, os pais, os chefes, e assim por diante. Há que se combater a violência e não apenas o caráter pseudo-gênero do problema. A natureza humana é violenta.
Mas choquei-me com uma declaração dia desses, de um "colega" de trabalho. (Sempre acreditei que o ambiente acadêmico fosse, no mínimo, educado em relação à exposição de ideias escrotas demais para serem ditas em voz alta. Ledo engano). Dizia ele, com essas mesmíssimas doces palavras que "se mulher não tivesse b****a, não mereceria nem ser cumprimentada na rua".  Não preciso reproduzir o conceito todo da palavra incompleta para saber do que se trata: a escrotice não tem tamanho e já está subtendida. Ser humano algum deveria ser capaz de reproduzir esse tipo de pensamento, mas vindo de um professor, que está todo santo dia em sala de aula, formando opiniões e participando do crescimento dos alunos, isso é , no mínimo, repulsivo. 
Eu era a única mulher presente na sala no momento que essa pérola foi jogada. Fiquei sem graça, muda e tentei disfarçar o nojo. A lógica me diz que não há esforço suficiente para que pessoas desniveladas intelectualmente compreendam seus erros. Foi então que percebi que realmente a luta feminista não vale nada quando essa é esvaziada de conhecimento. Esse professor estudou em universidade pública, fez pós-graduação e passou adiante o que entende da vida, ou seja, seria alguém "acima de qualquer suspeita". Eis a questão: é esse tipo de professor que discute racismo e preconceito em sala de aula e perpassa aos alunos sua visão decadente e equivocada daquilo que supõe ser conhecimento. 
A verdadeira luta das mulheres não seria gritar para esse pulha o quanto ele é asqueroso, pois não lhe falta entendimento. Essa é uma escolha particular dos homens (e mulheres). É temperamento. É ser. É essência: ele é essencialmente grotesco. E com isso, volto a questão inicial, de que o movimento feminista não mudará a essência humana, que é maléfica e decaída. 
E o que fazer, então? Cabe a cada qual uma escolha particular de como lutar contra seus verdadeiros monstros. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Relógio do Rosário - Drummond

Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva

pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,

que se entrelaça no meu próprio chôro,
e compomos os dois um vasto côro.

Oh dor individual, afrodisíaco
sêlo gravado em plano dionisíaco,

a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,

dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,

convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,

prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,

dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,

dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa

tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,

dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,

dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!

Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?

Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?

O amor elide a face... Ele murmura
algo que foge, e é brisa e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência
ao contacto furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.

Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário

já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Não sou responsável por aquilo que cativo

Não, eu não sou eternamente responsável por aquilo que cativo.
Saint-Exupéry estava errado. 
Não é a toa que é a raposa quem fala. Animal astuto, sabe cortejar suas vítimas. Coitado do pequeno príncipe, ainda tão imaturo, não sabia que poderia contestá-la. 
Afirmar que se é responsável eternamente por aqueles que te amam é tragédia declarada. Não sou, não posso ser responsável por aqueles que cativei, afinal, para o ato de cativar são necessários dois seres, dois sentimentos recíprocos, duas almas desejantes de amor e carinho. 
Pequeno príncipe habitou toda minha infância e adolescência. Lia e relia o livro já todo desenhado e rasgado, mostras do tempo que me acompanhou. Eram tão lindos os diálogos. Melancolia sem fim. Imaginava passar os dedos pelos caracóis dourados dos cabelos do príncipe. Imaginava o deserto. Uma flor solitária. Um universo bastante pesado para o cotidiano de uma criança. E logo tomei por frase de cabeceira essa que hoje renego: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Virou marcador de livro. Escrito à mão, doei de presente à um amor pueril. Hoje nem sequer penso mais nesse amor. Desobedeci a raposa e fui irresponsável com meu cativo.
Hoje reafirmo: liberto todos meus cativos! Não quero mais responsabilidades dessa estatura. 
Estou, por fim, livre da sentença da raposa. 


domingo, 13 de julho de 2014

Marcas

The Broken Circle Breakdown
2012
Felix van Groeningen
Bélgica

Inclassificável. Dolorido. Triste. Sim, acho que é essa a melhor definição de Alabama Monroe (The broken circle breakdown). 
Este é um daqueles filmes que me fez chorar, muito, copiosamente, compulsivamente, e que deixa meus olhos rasos d´água apenas ao lembrar.
Não consigo digerir filmes assim com facilidade. Na verdade tenho uma peculiaridade bastante incômoda para a convivência em grupo: não consigo conversar ou comentar qualquer coisa após assistir filmes que me tocam dessa forma. Todas as palavras me fogem ou soam ridículas. Perco a paciência ao me perguntarem "o que achei do filme". Sobre cinema pouco se "acha", muito se sente. É coisa de pathos, feeling, do mundo inatingível. Assim me senti após Alabama Monroe. Extasiada e triste ao mesmo tempo. Como é possível fazer um filme musical, dramático e crítico ao mesmo tempo? Temáticas opostas no mundo cinematográfico, mas não na vida. Talvez resida aí a beleza do filme. 
Num ritmo assimétrico, a história do casal formado por uma tatuadora e um músico de bluegrass na Bélgica (sim, há bluegrass fora do EUA!) se desenrola da paixão inicial ao desfecho trágico. A filha do casal, com apenas 6 anos, enfrenta o cancêr. A morte inevitável chega (lembrando se tratar do cinema belga e não americano, em outras palavras, não espere por piedade. Isso é cinema para gente grande.) e com ela a sombra do fim do casamento. O enredo aparenta ser dramalhão mexicano, mas se sustenta maravilhosamente entre cenas musicais deliciosas. Sim, é possível e apenas compreensível quando vivenciado. 
Didier conhece Elise ao admirá-la através da vitrine do ateliê de tatuagem "Nunca vi tatuagens tão belas". É para o corpo de Elise que ele olha. Ele diz não saber nada tão importante que merecesse ficar marcado no corpo para sempre. Elise então - em uma das cenas mais belas do filme - afirma que coisas que deixaram de ter importância foram recobertas por outras, mais belas. Diz isso apontando para suas próprias tatuagens, nomes de antigos amores, agora invisíveis sob as tintas coloridas de belos desenhos. 
E o círculo do título original, então quebrado com a morte precoce da filha do casal, se fecha perfeitamente ao final, na derradeira tatuagem escrita na virilha de Elise: Alabama Monroe. 
A discussão religiosa também está lá. A relação ética e moral da Bélgica e EUA também grita pela boca de Didier: células-tronco, eutanásia. Mas aqui nada disso me interessa. Ficarei apenas com as marcas do corpo, que inevitavelmente marcaram a alma, mas acima de tudo estão alí, expostas a olhos nú, recobertas por novos amores e novas dores. 




quinta-feira, 19 de junho de 2014

A segunda vez é sempre melhor

Fui rever "A Grande Beleza", dessa vez no cinema. 
Bauru não traz em sua disponibilidade cultural o gosto pelo cinema europeu. Como quase todo interior, aqui reinam os blockbusters e Hollywood shits. Mas às vezes escapam algumas pérolas, as quais recolho com carinho. 
Eis que o filme de Paolo Sorrentino caiu por aqui de paraquedas e, claro, durou menos que 15 dias. Fui com um amigo rever esse filme que julguei uma das poucas e boas homenagens ao cinema italiano - quase um plágio felliniano, e que fique claro, um excelente plágio. 
Péssima escolha do dia, fomos ao sábado a noite. Pensei comigo, "não terá público, ainda que sábado a noite, então estaremos livres da mastigação de pipocas e comentários imbecis". Logo me arrependi. A sala foi aos poucos se completando. Nem metade, mas além do esperado para um filme europeu. A cada casal que entrava, olhava para meu amigo e apontava, (com uma leve dose de veneno escorrendo da boca): "Aqueles alí não aguentarão nem metade do filme". Dos quatro casais apontados, nostradamicamente acertei três. Um casal miraculosamente resistiu. Para meu desespero, estavam eles numa diagonal perfeita entre a minha cabeça e o pé do macho alfa. 
E lá se foram 142 minutos de puras pérolas aos porcos - ou melhor dizendo, ao porco. O cidadão despejou um sem número de palavrões durante todo o filme. Não contente ao somente dizê-los à namorada, tinha o prazer em fazer com que todos da sala ouvissem. A cada comentário esdrúxulo dele, uma bufada minha. 
Quem me conhece sabe que fujo dos horários de pico do cinema exatamente para não viver esse tipo de experiência. Antes só do que mal acompanhada, como diria o sábio dito popular. 
O parvo falou durante as quase três horas de filme, incessantemente. Resistiu bravamente até o último minuto, quando bradou a última pérola: "que bosta foi essa?"
E lá se foi meu momento privilegiado de curtir o cinema europeu em minha cidade natal.  
Enfim, ainda com toda essa distração, minha primeira impressão se reafirmou: filme, lindo, sensível e genial. Apenas por ele (e não por Fellini!!!) tive vontade de visitar Roma pela primeira vez. 
Entrou para a lista de sets a serem visitados.